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Internacional

Grupo de brasileiros retidos em Portugal implora pelo repatriamento

Afetados pela crise econômica causada pelo covid-19, não tÊm emprego ou onde morar e veem no retorno ao Brasil a única maneira de sobreviver

Jornal do Brasil ELISABETH ALMEIDA, Especial para o JORNAL DO

Dezenas de imigrantes brasileiros que residem em Portugal lutam desde o dia 25 de abril pelo direito ao repatriamento em um dos voos fretados pelo governo brasileiro em parceria com a companhia TAP. “A maioria dos passageiros são turistas que ficaram retidos aqui, mas há casos de pessoas que no meio deste processo (pandemia) foram perdendo completamente as condições de ficarem em Portugal, porque perderam os seus empregos e não têm condições de pagar a renda do próximo mês e que vieram entrando em contato com o consulado", disse Izabel Cury, secretária do Consulado do Brasil em Lisboa.

Segundo Izabel, os turistas são a prioridade do Consulado "A gente tem estabelecido como critério o seguinte: a prioridade, obviamente, são os turistas, porque é para isso que os voos foram contratados, mas também não temos interesse em deslocar uma aeronave com assento vazio, quando há compatriotas precisando de voltar para casa e em necessidade", concluiu.

O grupo, que começou com aproximadamente trinta pessoas, era formado por idosos e casais com crianças e até mesmo bebês de colo que, por conta da pandemia causada pelo novo coronavírus, tiveram seus contratos de trabalho encerrados. Com o desemprego e sem seus salários, mesmo os imigrantes que conseguiram se manter no trabalho tiveram quedas de até 40% nos ganhos, e com isso a renda familiar caiu e muitos foram despejados de suas casas por falta de pagamento do aluguel.

Uma grande “culpada” nessa situação é a maneira como autônomos trabalham em Portugal, emitindo recibos verdes, termo usado no país para a política em que o governo dá aos imigrantes o direito de usufruir de um ano de isenção de desconto para a Segurança Social. Por parecer vantajoso, os trabalhadores abrem mão do benefício e acabam perdendo todos os direitos previstos pela Segurança Social de Portugal.

Sem trabalho, casa e com a notícia de que o governo brasileiro teria fretado seis voos de repatriamento, a entrada do Aeroporto Internacional de Lisboa se tornou a nova morada. Alguns foram até o Aeroporto Humberto Delgado alegando ter recebido instruções do Consulado brasileiro de que estariam confirmados em uma das aeronaves, outros se deslocaram até a capital portuguesa em busca de uma vaga remanescente. O resultado disso foram dias ao relento, sem dinheiro, sem comida e sem voos; já que muitos do que estariam confirmados na lista do Consulado, ao chegar em Lisboa, receberam a informação de que já não estavam mais.

Alex Santos é um dos brasileiros que se dirigiram ao Aeroporto Humberto Delgado seguindo recomendações que, segundo ele, partiram do Consulado ainda no dia 16 de abril “Eu vim pra cá (ao Aeroporto de Lisboa) quando confirmaram o meu voo para o dia 22 de abril e quando cheguei no aeroporto e fui perguntar, o meu nome já não estava na lista mais. Fui perguntar a razão e disseram que eu iria em um voo futuro, depois a mesma coisa. Agora eu estou aqui desde aquele dia esperando a resposta deles e não tenho resposta. Está tudo gravado no meu e-mail, eu não apaguei nada para ter a prova de tudo”, disse Alex.

“Eu sou o André, mais um dos brasileiros que estão sem condições financeiras de se manter. Estamos aqui no aeroporto desde o dia 25 de abril às 20h. Hoje teve o voo (de repatriamento) e quase todo mundo ficou para trás. Nós não somos irresponsáveis por termos vindo aqui sem termos sido chamados. Nós estamos aqui porque não temos mais condição, não temos dinheiro, não temos mais casa e nem comida. Estamos fazendo ‘vaquinhas’ para comer e as pessoas que estão aqui estão se ajudando pois não temos mais para onde ir”, relatou André Soncin, eleito porta-voz do grupo

“Os representantes do Consulado vieram aqui e simplesmente sairam pela porta dos fundos, como ratos, e não deram uma satisfação para nós, não disseram nada e simplesmente saíram pela porta dos fundos. Só que nós estamos aqui no relento, no frio [10ºC à noite] e não por sermos irresponsáveis, mas por não termos para onde ir, não temos mais o que fazer e o Consulado tem a obrigação de nos repatriar, nós somos brasileiros, trabalhadores e pais de família.”, continuou Soncin.“Tem crianças aqui sem leite, idosos, pessoas com remédios controlados e nós vamos para onde? Alguém me diz? Estamos todos aqui sem poder nem entrar no Aeroporto e por isso estamos do lado de fora há dias, quer dizer, já perdemos tudo, até a nossa dignidade”, desabafou o porta-voz do grupo.

O grupo de brasileiros também ressalta em sua defesa, diante de comentários sobre o fato de irem viver em Portugal, que de acordo com dados do Observatório das Migrações (OM), apenas a contribuição dos imigrantes residentes no país rendeu à Segurança Social em 2019, o dobro do valor arrecadado em 2013, e por isso o OM enfatiza a importância dos imigrantes para a economia do país e relata que “serão cada vez mais necessários para conduzir à sustentabilidade do sistema de Segurança Social português”.

O estudo confirma a frase usada por muitos membros do grupo que estava acampado na parte externa do Aeroporto Internacional de Lisboa, de que “ouvimos de muitos portugueses e até mesmo de outros brasileiros que não deveríamos ter vindo e que é melhor mesmo voltarmos para o nosso país, mas eles se esquecem de que todos aqui trabalham e contribuem para Portugal e que ninguém está aqui de graça. Viemos tentar a vida aqui com o mesmo direito que qualquer cidadão tem de ir ao Brasil e não queremos este tipo de julgamento”, disseram.

A primeira vitória - “Bom gente, desculpa esse tempo todo (sem se comunicar), o clima aqui foi tenso, foi horrível, mas a polícia esteve aqui e eles disseram que nós vamos embora amanhã. Todos nós que ficamos aqui na luta, vamos embora amanhã, nós conseguimos! A gente conseguiu! Graças a Deus e a vocês! Conseguimos! Conseguimos! Nós conseguimos!” disse André Soncin emocionado, ao receber a informação de que seu nome estava confirmado na lista de um dos voos de repatriamento.

O voo a princípio seria o último voltado para o repatriamento, e teve como passageiros treze membros do grupo que passou tantos dias acampados ao relento no Aeroporto de Lisboa, estando André entre eles. Em contrapartida, o número de brasileiros à espera do repatriamento que se iniciou com 30 pessoas, já passava dos 70, e coordenadores de grupos relacionados a este fim relatam que o real número deve passar dos trezentos, que aguardam retornar ao Brasil o quanto antes por não ter condições de se manter em Portugal.

“Tudo indica que na semana que vem, todos estarão em casa, mas eu só vou descansar mesmo quando todos estiverem a embarcar para o Brasil. Espero realmente que, se Deus for grande como é, eles consigam ir.. Vamos orar por eles, fazer uma corrente de energia forte para que eles consigam estar com suas famílias e filhos”, deseja José Rafael Batista, um português que abraçou a causa e desde sábado esteve junto com os imigrantes na luta pelo repatriamento dos brasileiros.

Ao desembarcar no Aeroporto Internacional de São Paulo, André Soncin, que viajou apenas com a roupa no corpo, já não era capaz de esconder a alegria de retornar para os braços de sua família: "Oi, pessoal! Acabei de chegar no aeroporto (de São Paulo), graças a Deus, graças a vocês. Eu devo muito a todas vocês, já que se não tivesse todo mundo se empenhando, nada disso seria possível. Estou sabendo que uma parte foi para um hostel e que terá um voo ainda vindo para o Brasil, alguém confirma isso para mim, senão eu não terei paz. Parece que nossa luta deu certo, que Deus abençoe a todos vocês, que lutaram; que ajudaram com doações; com palavras de apoio… Muito Obrigado!” disse.

Em comunicado divulgado nas redes socias, oficiais do Consulado do Brasil em Portugal, o órgão público alega ter feito todo o possível e que acredita ter cumprido sua missão “O Consulado-Geral em Lisboa, em coordenação com a Embaixada do Brasil e com os Consulados-Gerais sediados no Porto e Faro, de fato contratou, até o momento, seis voos de repatriamento em benefício de nacionais brasileiros. Cinco desses voos já chegaram a seu destino, e um sexto será operado nos próximos dias. No total, já foram beneficiados com a medida 1.494 nacionais brasileiros, e há a perspectiva de que mais de 300 embarquem no próximo voo. Até aqui, todos os voos partiram lotados”, diz a nota.

Os remanescentes - Treze membros do grupo de imigrantes brasileiros foram repatriados ainda em abril, os outros dezessete permanecem em Portugal aguardando uma resposta.

Após o voo do dia 30/4, com parte do grupo, eles receberam a informação de que não poderiam permanecer do lado de fora do Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa e, sem o auxílio do Consulado brasileiro, recorreram à Segurança Social do governo português que, os alojou em um hostel, o Inatel de Oeiras, também em Lisboa, onde recebem também apoio psicológico.

“Depois de uma semana dormindo lá no aeroporto e sem resposta nenhuma do Consulado, a gente continua aqui em Portugal e ainda sem notícias e o que aconteceu é que o Estado português tomou as nossas dores e nos trouxe pra cá, no Inatel”, disse Ilker Luiz, que é natural de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. “Estamos aqui presos em Portugal, a única resposta que tivemos do Consulado é que nosso nome seria incluído em um voo futuro e que estariam analisando, mas o nosso critério não corresponde à ajuda humanitária, que é só para casos de urgência e a gente liga e não consegue resultado nenhum”.

“Poxa, todo mundo aqui está desempregado, todo mundo não tem para onde ir e estão morando embaixo da ponte aqui na cidade de Lisboa e o Consulado não toma nenhuma providencia para ajudar o seu próprio povo. Portugal tem tomado as nossas dores, através da linha 144, da Segurança Social de Portugal que, tem acolhido o que pode, mas o sistema deles já está sobrecarregado também e a única coisa que a gente quer é voltar para a casa é voltar para a nossa pátria brasileira e quem está cuidando da gente é Portugal. Que vergonha ver Portugal tomando as nossas dores e nosso país virando as costas pra gente. Isso não é admissível”, concluiu Ilker.

A esperança- A nova esperança para o grupo, que tanto lutou pelo repatriamento é o voo que acontecerá nesta sexta-feira, dia 22 de maio, que sairá de Lisboa com destino a São Paulo.

O voo sairá da capital portuguesa às 14 horas e com a viagem bem sucedida de outros compatriotas que passaram dias a fio acampados no Aeroporto Humberto Delgado, um grupo de brasileiros já está indo em direção à Lisboa para fazer filas e se manifestar, de maneira pacífica, o seu descontentamento com as autoridades brasileiras.

Segundo André Soncin, brasileiro repatriado e que segue como porta-voz do grupo, sua missão está prestes a ser cumprida, “Se Deus quiser conseguirei cumprir meu principal objetivo, que é conseguir o repatriamento dos meus companheiros de luta, que permaneceram junto comigo por tantos dias ao relento no aeroporto e que não conseguiram vir para o Brasil. Já é uma alegria imensa saber que eles estão no Inatel e estão sendo cuidados, bem assistidos pelo governo português e já com nome na lista do voo do dia 22 de maio”.

“Meu maior pesadelo é ver que meus companheiros lá que não conseguiram embarcar ainda em abril e que vão fazer isso agora. Minha expectativa é para que tudo dê certo e que todo mundo consiga seu objetivo, o seu repatriamento e estamos aqui ainda sonhando para que tudo aconteça da melhor forma possível e que todo mundo possa voltar ao seu país de origem. Aí sim poderemos dormir em paz, sabendo que nosso objetivo foi cumprido”, encerrou André.