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Ataque americano demonstra fracasso da política externa de Trump

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A morte do segundo homem mais poderoso do Irã, Qassim Soleiman, comandante da Guarda Revolucionária, mostra as limitações da política externa zigue-zague que o presidente americano, Donald Trump, reserva para seus inimigos.

O líder americano consagrou uma abordagem que mistura ameaças hiperbólicas com recuos discretos. Essa política, no entanto, tem um problema de credibilidade porque todos no Oriente Médio sabem que Trump chegou ao poder com o objetivo fundamental de retirar tropas americanas da região e não entrar em novas guerras.

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Presidente dos EUA, Donald Trump (Foto: REUTERS/Kevin Lamarque)

“Para o presidente iraniano, Rouhani: NUNCA MAIS AMEACE OS ESTADOS UNIDOS OU SOFRERÁ CONSEQUÊNCIAS QUE POUCOS SOFRERAM AO LONGO DA HISTÓRIA. NÃO SOMOS MAIS UM PAÍS QUE TOLERA SUAS PALAVRAS DEMENTES SOBRE VIOLÊNCIA E MORTE. TENHA CUIDADO”, disse Trump pelo Twitter em julho de 2018.

Mas, cada vez mais, estava difícil acreditar que Trump seria tão belicoso no mundo real como o era no Twitter. E o poder de dissuasão, como sabemos, depende de credibilidade.

Há meses Trump vinha ameaçando atacar o Irã, caso os iranianos não deixassem de patrocinar milícias xiitas na Síria, no Iêmen, no Líbano e no Iraque.

Mas, na hora agá, o presidente americano sempre recuava.

Em junho, quando o Irã abateu um drone americano, Trump chegou a determinar que as forças americanas atacassem instalações militares iranianas. Mudou de ideia em cima da hora.

Muitos republicanos que são falcões na política externa, como o senador Lindsey Graham, alertaram que essa inação iria encorajar o Irã.

Em setembro, drones atingiram instalações da megapetrolífera Aramco, na Arábia Saudita. O ataque foi reivindicado pelos rebeldes houthis do Iêmen, que são apoiados pelo Irã. Esperava-se uma reação assertiva dos EUA em defesa de seu aliado saudita. De novo, após alguns arroubos retóricos, Trump não fez nada e se ateve ao objetivo de sair das “areias manchadas de sangue” do Oriente Médio.

Com o ataque de milícias xiitas contra uma base americana no fim de dezembro, que levou à morte de um americano, e subsequentes protestos que ilharam diplomatas americanos na embaixada em Bagdá, com assustadores ecos da Revolução Islâmica no Irã de 1979, ficou insustentável.

A ideia de que Trump esbraveja, mas não faz nada, estava cristalizada. O líder americano se viu compelido a reagir militarmente.

“Nós matamos o homem mais poderoso em Teerã, depois do aiatolá. Não foi um ato de vingança pelo que ele fez no passado. Foi um ato de precaução, de defesa, para acabar com o organizador de ataques que viriam no futuro”, disse o senador Graham.

A “necessidade” de atacar serviu como um lembrete para a fragilidade dessa política zigue-zague com países adversários do EUA. Com a Coreia do Norte, Trump alternou ameaças de “destruir totalmente o país” com juras de amor e reuniões bilaterais. A declaração de final de ano do ditador Kim Jong-un, em que ele se mostra disposto a retomar testes nucleares, demonstra o limitado poder de dissuasão do presidente americano.

E essa falta de credibilidade irá se manter, uma vez que está presente o dilema de base de Trump —como resolver conflitos que driblaram seus antecessores, como Irã e Coreia do Norte, mas não se envolver em qualquer tipo de guerra?

O risco agora é acabar sugado para uma guerra “nas areias manchadas de sangue” do Oriente Médio.

Porque a demonstração de força contra o Irã foi decidida de forma impulsiva, fiel ao estilo Trump. E é bem pouco provável que a Casa Branca tenha calculado as possíveis consequências para tropas americanas no mundo e para o frágil equilíbrio de forças no Oriente Médio. (Patrícia Campos Mello/FolhaPress SNG)