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Lacalle Pou diz que venceu, e Martínez não admite derrota no Uruguai

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Luis Lacalle Pou, 46, queria ter festejado na madrugada desta segunda (25) a vitória nas eleições. Afinal, já havia multidão de apoiadores do partido Nacional, vestidos de branco e celeste, espalhados pelo Bulevar Artigas, quando ele finalmente subiu ao palco e falou até por volta da 1h.

Com ar de contragosto, disse que não entendia por que o candidato da Frente Ampla, Daniel Martínez, tinha saído a público para festejar sua boa votação e não para admitir sua derrota, "quando até mesmo o presidente Tabaré Vázquez me telefonou para me cumprimentar", disse Lacalle Pou.

Naquela altura, com mais de 98% dos votos apurados, a diferença em seu favor era pequena, pouco menos de 30 mil votos, mas a vitória não poderia ser declarada: porque faltava checar "votos observados".

Como o Uruguai moderno é um país legalista, laico e cumpridor das regras, foi o máximo de críticas que pôde fazer. Lacalle Pou e seu entorno sabem que, se a contagem dos votos que faltam seguir a tendência de todo o país, ele será o novo presidente. Apenas se 91% dos votos "observados" forem de Martínez, haveria como a Frente Ampla levar o jogo. Matematicamente possível, praticamente impossível.

Após a primeira apuração, Lacalle Pou tem 48,71% dos votos, e Daniel Martínez, 47,51%.

Mas Lacalle Pou não pôde comemorar. As mesmas regras de civilidade entre uruguaios, que datam do seu fundador, José Batlle y Ordoñez (1856-1929), o impediram de repreender, em público, um de seus apoiadores, o ex-general Manini Ríos, que rompeu o veto a propaganda no dia das eleições para soltar nas redes um vídeo agressivo contra a esquerda, pedindo que toda a "família militar" deixasse de votar na Frente Ampla.

Para o cientista político Daniel Chasquetti, o estilo explosivo de Ríos "tem parte da responsabilidade por ter assustado alguns eleitores de Lacalle Pou, que podem ter decidido votar na Frente Ampla. Os uruguaios não gostam de extremos. Se Ríos vai ser um fato radicalizador, muitos não aceitarão", diz Chasquetti.

O órgão eleitoral decidiu que o resultado final será anunciado apenas na quinta ou na sexta-feira. Não porque tenham parado de contar, como ocorreu na Bolívia, mas, pelo contrário, para que a contagem dos votos observados tenha ainda maior rigor.

Lacalle Pou se recuperou de sua raiva contida contra Martínez no fim de seu discurso, em que pediu aos eleitores do partido Nacional que voltassem para casa "em paz e com paciência" e que cumprimentassem os seus vizinhos e amigos da Frente Ampla no dia seguinte com a mesma fraternidade com que militantes dos dois partidos haviam saído às ruas nos últimos dias. "Imagens que hoje espantam o mundo e que só o Uruguai pode oferecer."

Nesta segunda, Martínez disse que não havia descompasso dentro da Frente Ampla pelo fato de o presidente Tabaré Vázquez ter cumprimentado Lacalle Pou. "Eu pretendo cumprimentá-lo também, quando a corte eleitoral o declarar vencedor", disse.

Lacalle Pou não se pronunciou publicamente, mas na esfera privada, houve muita discussão sobre o vídeo de Manini Ríos. O candidato começou dizendo que "isso não pode acontecer no Uruguai". Durante o dia, foi a vez dos colorados: Ernesto Talvi disse que "foi um erro", e o veterano Julio Maria Sanguinetti afirmou ser "uma mensagem divisiva".

Na fila para o barco que une Montevidéu e Buenos Aires, alguns uruguaios residentes na capital argentina confraternizavam. Um senhor que chegou com a bandeira nacional em torno do pescoço disse, a um mais velho, eleitor da Frente Ampla, que estava quase chorando, "mas vocês tinham que sair um dia, não?". Ao que o senhor esquerdista, apoiado em sua bengala, respondeu: "Nós voltaremos, saímos fortes da eleição, espero aguentar até 2025 para ver a Frente no poder outra vez".(Sylvia Colombo/FolhaPress)