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Com demissão de Bolton, Brasil perde interlocutor no governo Trump

Jornal do Brasil PATRÍCIA CAMPOS MELLO

O governo brasileiro perde um de seus principais interlocutores em Washington com a demissão de John Bolton.

O agora ex-assessor de segurança nacional era um dos maiores defensores da aproximação entre Brasil e EUA e chegou a propor que o país fosse incorporado à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) como membro pleno -e não apenas aliado preferencial extra-Otan, status que o Brasil ganhou após visita de Jair Bolsonaro a Washington, em março.

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John Bolton (Foto: REUTERS/Kevin Lamarque)

Mas fontes do governo ouvidas pela reportagem não consideram a saída de Bolton necessariamente ruim, pois a mudança pode restabelecer a postura menos intervencionista do presidente Donald Trump em relação a conflitos como o da Venezuela.

O próprio Trump fazia troça dizendo que, se dependesse de Bolton, os EUA já teriam entrado em várias guerras. 

Integrante da ala linha-dura do governo americano, Bolton era o principal defensor do endurecimento de sanções contra a Venezuela e, caso necessário para tirar o ditador Nicolás Maduro do poder, intervenção militar.

Por isso, liderava a pressão para que o Brasil se envolvesse em algum tipo de ação no país sul-americano. 

Na visão do governo brasileiro, é positivo que o presidente americano volte a suas origens mais pragmáticas, com mensagem antiguerra e contra conflitos desnecessários e custosos.

A demissão, no entanto, não significa uma mudança aguda e um Trump paz e amor com a Venezuela daqui para frente.

A eleição presidencial de 2020 está no horizonte próximo, e a Flórida é um estado muito importante -o discurso duro contra Maduro é essencial para conquistar grande parte dos votos dos cubano-americanos de primeira geração e dos venezuelanos que vivem no estado. 

Para fontes do governo brasileiro, Bolton tinha bagagem e era associado a essa posição excessivamente "hawkish" (agressiva, no jargão de política externa americana).

Seu substituto poderia ser alguém com visão semelhante, mas sem a bagagem e o custo de imagem. 

A torcida de membros da gestão de Bolsonaro agora é para que Mauricio Claver-Carone, diretor de Hemisfério Ocidental no Conselho de Segurança Nacional, mantenha-se em seu cargo.

Ele, que liderava uma associação americana para defesa da democracia em Cuba e é uma das figuras-chave na política americana para Venezuela, é bastante próximo de Filipe Martins, assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, que também tinha livre trânsito com Bolton. (PATRÍCIA CAMPOS MELLO/Folhapress)