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Ex-amigo de Netanyahu se torna seu principal rival nas eleições de Israel

Jornal do Brasil DANIELA KRESCH

Ele é um amigo excepcional. Um ser humano incrível, muito correto, bem diferente de sua imagem". As palavras do premiê israelense Binyamin Netanyahu se referem ao ex-ministro da Defesa e ex-chanceler Avigdor Lieberman, 61, um dos mais veteranos e complexos políticos do país, cuja pinta de durão é apreciada por alguns e execrada por outros.

Os elogios rasgados, no entanto, foram ditos em 1997, antes de Netanyahu e Lieberman se desentenderem.

A amizade teve altos e baixos nos últimos 22 anos. Atualmente, os dois são adversários ferozes e se culpam mutuamente pela convocação de novas eleições em Israel, em 17 de setembro, cinco meses após o pleito de 9 de abril.

Netanyahu venceu a votação, mas não conseguiu costurar a coalizão de governo por causa de um obstáculo: seu ex-amigo.

Sabendo que seria o fiel da balança, Lieberman aumentou o nível das exigências para que seu partido, o ultranacionalista Israel Nossa Casa, participasse do arranjo. Contrariado, Netanyahu ofereceu menos para não perder outros aliados. Nenhum dos dois cedeu.

O ex-ministro saiu fortalecido do embate. De acordo com pesquisas eleitorais, o Israel Nossa Casa conquistará 10 das 120 cadeiras do Knesset, o Parlamento em Jerusalém. Após o pleito de abril, a legenda teve apenas metade disso.

"Netanyahu certamente não diria hoje em dia que Lieberman é um amigo excepcional", afirma o jornalista político Yoav Krakowsky.

Os antigos elogios aparecem no recém-lançado documentário "Lieber-man", da cineasta Nurit Keidar, sobre a vida e a carreira do político que nasceu em Chisinau, na Moldávia (ex-URSS), e emigrou para Israel em 1978, aos 20 anos.

Evet Lvovich Liberman --que mudou o nome para Avigdor após imigrar-- é um personagem quase caricato, com voz grossa e forte sotaque. Em programas de humor, é representado como um agente da KGB, um líder soviético ou um gângster russo estereotipado.

Suas ideias são, às vezes, contraditórias e confusas. Por um lado, é tido como "homem de ferro", por outro, mostra incrível flexibilidade ideológica.

Acima de tudo, ele é um ultranacionalista, algo que herdou de seu pai, Lev Lieberman, ex-integrante do Exército russo que foi preso após a Segunda Guerra Mundial.

"Seu pai foi a figura dominante em sua vida", diz a documentarista Nurit Keidar. "Ele foi mandado para a Sibéria por Stalin e ficou lá por dez anos. Depois veio para Israel e isso levou a seu forte nacionalismo. Os dois se falavam diariamente [até sua morte, em 2007]".

O próprio Lieberman conta que foi criado falando apenas iídiche até os três anos de idade. O antissemitismo local o levou a acreditar na importância de Israel para os judeus. Mas a herança soviética moldou a ideia de que religião e política não devem se misturar: "Queremos aqui um Estado Judaico, mas não governado pela halachá [a lei religiosa judaica]", disse Lieberman em entrevista ao jornal Maariv.

Também ex-ministro da Infraestrutura, dos Transportes e de Assuntos Estratégicos, ele diz se preocupar com o aumento da influência de partidos religiosos.

Talvez mais do que o conflito com os palestinos e o mundo árabe, é a questão religiosa que divide os israelenses. Tanto que muitos eleitores do enfraquecido Partido Trabalhista (casa de ex-líderes como David Ben-Gurion, Yitzhak Rabin e Shimon Peres) pretendem votar em Lieberman no dia 17.

O adversário de Netanyahu defende um governo de união nacional entre os governistas do Likud e a oposição da legenda de centro-esquerda Azul e Branco, tirando os partidos religiosos da equação. E afirma que o premiê erra ao se associar com os religiosos.

"A ânsia por poder supera todas as outras considerações, ao que parece. No momento, o acordo entre Netanyahu e os ultraortodoxos é claro. Eles dão a ele o governo e ele dá a eles um Estado de halachá", disse ele.

Lieberman ingressou na política ainda jovem e chegou ao cargo de diretor-geral do Likud, partido de Netanyahu, em 1993, permanecendo até 1996.

Por um ano, liderou o gabinete de seu atual rival. Porém, em 1997, deixou o Likud criticando o chefe por, segundo ele, ter feito concessões demais aos palestinos.

Dois anos depois, fundou o Israel Nossa Casa, legenda que lidera de forma centralizadora. Adotou um discurso ultranacionalista, mas com toques liberais, conquistando o eleitorado de imigrantes da antiga União Soviética, que representam 18% da população de Israel.

Ele já propôs uma troca populacional entre Israel e a Autoridade Palestina e a instituição de pena de morte para terroristas. Certa vez, chamou os parlamentares árabe-israelenses de "apoiadores do terrorismo".

Lieberman mora em uma colônia na Cisjordânia, o que demonstra seu apoio aos assentamentos israelenses na região, mesmo que já tenha defendido a criação de um Estado palestino.

Por outro lado, ele promove ideias liberais, como afrouxar leis religiosas para casamentos e divórcios e a maior integração de judeus ultraortodoxos no Exército, bandeiras caras aos israelenses seculares.

Ele também redigiu e aprovou leis pró-LGBT no Knesset, o que agrada esquerdistas.

O candidato ja enfrentou problemas com a Justiça.

Foi acusado de receber milhões de shekels de empresários enquanto atuava como parlamentar. De 2001 a 2010, foi interrogado diversas vezes até ser indiciado, em 2011, por fraude, lavagem de dinheiro e outros crimes.

Dois anos depois, porém, ele foi inocentado.

Em 2018, no entanto, membros importantes de seu partido foram indiciados em casos de corrupção. David Godovsky foi condenado a sete anos de prisão por fraude, evasão fiscal e lavagem de dinheiro.

Fania Kirschenbaum, ex-mão-direita de Lieberman, aguarda julgamento por criar um esquema de doação de verbas para ONGs com a condição de que parte do dinheiro voltasse, por debaixo dos panos, para o partido.

Críticos de Lieberman se perguntam se ele não sabia dos casos de corrupção e se estaria envolvido.

(FolhaPress SNG, por DANIELA KRESCH)