Mueller diz que não exonerou Trump e que lei impede processo contra presidente

O ex-procurador especial dos Estados Unidos Robert Mueller disse em uma audiência parlamentar tensa, nesta quarta-feira, que não exonerou o presidente Donald Trump de obstrução da Justiça, e indicou que o teria indiciado não fosse por uma diretriz de longa data do Departamento de Justiça contra a apresentação de acusações a um presidente no exercício do cargo.

Mueller, que respondia perguntas sobre seu inquérito em público pela primeira vez, também defendeu a integridade da investigação, ao comparecer para um depoimento muito aguardado na primeira de duas audiências consecutivas e televisionadas de grande importância tanto para Trump como para os democratas, de oposição, que estão divididos entre buscar um impeachment ou se concentrar na eleição de 2020.

O ex-diretor do FBI, que passou 22 meses investigando o que concluiu ser uma interferência russa de "forma abrangente e sistemática" na eleição de 2016 para ajudar Trump e também a conduta do presidente, falou primeiramente ao Comitê Judiciário da Câmara dos Deputados.

O presidente democrata do comitê, Jerrold Nadler, elogiou Mueller e disse que ninguém, incluindo Trump, está "acima da lei". No entanto, aliados republicanos de Trump no comitê tentaram descrever a investigação de Mueller como injusta com o presidente.

O relatório de 448 páginas de Mueller, divulgado em 18 de abril em versão editada, não concluiu se Trump cometeu o crime de obstrução da Justiça em uma série de ações que visaram impedir o inquérito, mas tampouco o exonerou.

O deputado democrata Ted Lieu perguntou a Mueller se a razão de ele não ter procedido a um indiciamento contra Trump foi a diretriz já antiga do Departamento de Justiça contra a apresentação de acusações criminais a um presidente no exercício do cargo.

"Isso é correto", respondeu Mueller.

Trump afirma que o inquérito Mueller resultou em sua "exoneração completa e total".

"Você de fato exonerou totalmente o presidente?", perguntou Nadler a Mueller.

"Não", respondeu Mueller.

No dia 29 de maio, Peter Carr, porta-voz do ex-procurador especial à época, e Kerri Kupec, porta-voz do Departamento de Justiça, emitiram um comunicado conjunto dizendo que o secretário de Justiça, William Barr, havia dito anteriormente que Mueller "afirmou repetidamente que não estava dizendo que, se não fosse pela opinião do OLC (Escritório de Aconselhamento Legal do Departamento de Justiça), teria considerado que o presidente obstruiu a Justiça".

Questionado na audiência se mantinha o comunicado de 29 de maio, Mueller disse: "Teria que analisá-lo melhor".

Mueller, acusado por Trump de comandar uma "caça às bruxas" e de tentar orquestrar um "golpe" contra ele, disse que seu inquérito foi realizado de "uma forma justa e independente" e que os membros de sua equipe "eram da maior integridade".

"Deixem-me dizer mais uma coisa", disse Mueller. "Ao longo de minha carreira, vi nossa democracia enfrentar vários desafios. O esforço do governo russo para interferir com nossa eleição está entre os mais graves".