Para Putin, é cedo para dar parabéns ao novo presidente da Ucrânia

Comediante Volodimir Zelenski assumirá o cargo no dia 31 de maio

Eleito de maneira esmagadora no segundo turno do pleito presidencial da Ucrânia, o comediante Volodimir Zelenski recebeu congratulações de líderes como o americano Donald Trump e o francês Emmanuel Macron. Mas não receberá telefonema algum de seu mais importante vizinho, o russo Vladimir Putin.


"É muito cedo para falar disso [congratulações de Putin], assim como falar sobre possibilidades de trabalharem juntos. Só será possível julgar [Zelenski] a partir de suas ações", afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, segundo a agência russa Tass.


Com quase 100% dos votos contados, Zelenski amealhou 73,2% das preferências do eleitorado. Derrotou o presidente Petro Porochenko, líder que havia subido ao poder em 2014 e teve apenas 24,5% dos votos.
Vencedor de uma disputa quase surreal, na qual lançou-se apenas em janeiro deste ano, Zelenski vivia no programa de TV "Servo do Povo" um professor de história que, após ter um vídeo no qual critica a corrupção na Ucrânia viralizado na internet, acaba eleito presidente.


A mimese entre vida e ficção é tão grande que Zelenski adotou o nome e a logomarca do partido de seu personagem na campanha real. Mesmo o potencial conflito entre o presidente com apoio popular mas sem estrutura partidária e o primeiro-ministro representando o "status quo" foi previsto na série -com a prisão do rival no Parlamento.


A Rússia é o desafio mais evidente de Zelenski, mas nem de longe é o único, a começar pela difícil situação econômica do país. Em 2014, o antecessor de Porochenko, o pró-Kremlin Viktor Ianukovitch, foi derrubado por forças apoiadas por governos ocidentais. A nova gestão em Kiev moveu-se de forma mais decisiva rumo à Europa, o que não é considerado aceitável pela elite política russa.
Uma olhada no mapa dá parte da explicação. A Ucrânia é um grande país separando as forças da Otan (aliança militar ocidental) das fronteiras russas. Além disso, Moscou sempre considerou Kiev como sua (como foi dos tempos imperiais até o fim da União Soviética, em 1991), além de compartilhar herança cultural e linguística.


Com a crise de 2014, Putin agiu rápido e surpreendeu o mundo patrocinando a anexação da Crimeia, península de maioria russa étnica. Se lá o movimento foi praticamente pacífico, o mesmo não aconteceu na tentativa de separatistas do leste ucraniano de se unir a Moscou -gerando uma guerra civil inconclusa que já matou 13 mil pessoas.


Agora, o temor em Kiev é que a Rússia distribua passaportes para os moradores russos étnicos das duas autoproclamadas "república populares" da região do Donbass, assim como fez antes de anexar de fato a Crimeia. Contra esse raciocínio, há a economia: analistas duvidam que o Kremlin tenha saúde financeira para pagar por mais uma absorção.


Ainda que se apresente como pró-Ocidente, Zelenski disse após ter sua vitória clara no domingo (21) que quer retomar negociações de paz com a Rússia. Sua retórica é bem menos incendiária do que a de Porochenko, que vestiu o manto do nacionalista fervoroso e religioso -até um cisma entre os ortodoxos ucranianos e russos ele conseguiu promover neste ano.
Zelenski tem outro feitio e, além de jovem (41 anos), não é cristão ortodoxo. É o primeiro presidente judeu da Ucrânia, associado segundo adversários e analistas ao bilionário Ihor Kolomoiski, igualmente judeu e que mora em Israel.


Busca apresentar-se como um Macron ucraniano, e não apenas o receptáculo da grande insatisfação antiestablishment que elegeu nomes como Trump e Jair Bolsonaro, por exemplo. Não por acaso, encontrou-se com o francês pouco antes da eleição.


Zelenski assumirá o cargo no dia 31 de maio, e terá até outubro para estruturar o partido Servo do Povo da vida real para a disputa das 450 cadeiras do Parlamento. Hoje a agremiação conta com cerca de 25% das intenções de voto, seguida de perto por um bloco pró-Rússia e por uma miríade de partidos menores. Enquanto isso, terá de lidar com um premiê potencialmente hostil e ligado a Porochenko, além do partido do atual presidente, dominante no Congresso.