Argelinos voltam às ruas para novos protestos

Os argelinos retornaram às ruas nesta sexta-feira, na primeira grande manifestação desde a renúncia de Abdelaziz Bouteflika, para exigir que a cúpula do ex-presidente não se envolva na transição política.

No início da manifestação, a mobilização era maciça no centro de Argel, principalmente na praça do Grande Poste, o epicentro dos protestos.

Em um vídeo postado na internet, o advogado Mustapha Bushashi, uma das vozes do movimento de contestação, pediu aos argelinos que façam desta sexta-feira "um grande dia". "A renúncia do presidente não significa que vencemos", advertiu.

Os manifestantes exigem a saída de Abdelkader Bensalah, Tayeb Belaiz e Nuredin Bedui, três homens-chave do aparato de poder de Bouteflika e a quem a Constituição confia as rédeas do processo de transição.

Bensalah, nomeado por Bouteflika há 16 anos como presidente do Conselho da Nação (câmara alta), deve substituir o presidente durante três meses, o tempo para organizar novas eleições presidenciais.

Tayeb Belaiz, que foi ministro por 16 anos, quase sem interrupção, preside - pela segunda vez em sua carreira - o Conselho Constitucional, encarregado de controlar as eleições.

O primeiro-ministro Nuredin Bedui foi, até a sua nomeação no dia 11 de março como ministro do Interior, "chefe de fraude eleitoral e inimigo das liberdades", conforme descrito pelo jornal El Watan.

"Respeitar a Constituição" e confiar a transição e a organização das eleições àqueles que encarnam o sistema, "provavelmente causará mais protestos. Os manifestantes duvidam que as eleições serão justas (...) e livres", estima Isabelle Werenfels, pesquisadora do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança.

Os manifestantes pedem a criação de instituições de transição para reformar o país e organizar um marco legal que garanta eleições livres.

"O pós-Bouteflika não está claro. A rua e os partidos" de oposição "pedem uma nova Constituição, uma nova lei eleitoral", aponta Hamza Meddeb, pesquisador do Instituto Universitário Europeu de Florença.

A Argélia entra "na fase mais delicada, já que a rua e as instituições podem se dividir", estimou.

O grande vencedor desta disputa com a cúpula de Buteflika é o general Ahmed Gaid Salah, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas.

Mas Hasni Abidi, diretor do Centro de Estudos e Pesquisas do Mundo Árabe e Mediterrâneo de Genebra, ressalta que "a rua argelina tornou-se o novo ator da vida política, enquanto não sabemos muito sobre as intenções dos militares no pós-Buteflika".

Ainda mais quando o general Gaid Salah é amplamente percebido pelos manifestantes como um homem do "sistema" Buteflika, a quem ele serviu fielmente até poucos dias atrás, desde sua nomeação em 2004.

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