EUA critica 'diplomacia da dívida' da China em América Latina e Caribe

Em uma entrevista sobre a presença da China na América Latina e no Caribe, o subsecretário do Departamento de Estado para recursos energéticos dos Estados Unidos, Frank Fannon criticou a "diplomacia da dívida" do país asiático por considerar que gera uma "mentalidade de dependência" de Pequim.

Em contraposição à China, Fannon, promoveu a mentalidade "de associação, e não de controle" que, segundo ele, norteia os investimentos americanos.

Ele afirmou que o governo americano trabalha com os países da América Latina e do Caribe para ajudá-los a "encontrar novos modelos" de desenvolvimento energético e suprir a ausência deixada na região pela queda da produção de petróleo da Venezuela, que oferece facilidades de pagamento através do programa Petrocaribe.

Durante a última década, a presença chinesa cresceu significativamente na América Latina, principalmente na Venezuela - seu principal devedor na região -, onde investiu cerca de 60 bilhões de dólares com empréstimos reembolsáveis com barris de petróleo.

 

Abaixo, seguem os trechos da entrevista.

 

Pergunta: A China ganhou espaço na América Latina e no Caribe. Os Estados Unidos tentam reverter essa situação?

Nenhum governo diz "queremos mais investimento chinês". O que todos dizem é "o que podemos fazer para tornar nosso país interessante para o investimento dos EUA?". Porque o mundo está percebendo que, quando um investimento chinês acontece, sempre há um compromisso. É uma extensão do Estado. Este modelo de diplomacia da dívida não é um investimento que busca um retorno. O resultado cria dependência e nenhum país quer isso.

Em contraste, um investimento dos EUA não é uma extensão do governo. O governo não direciona o investimento. É uma decisão de uma empresa cujo trabalho é beneficiar seus acionistas. É outra mentalidade completamente, de associação e não de controle.

Temos uma variedade de programas na região para reduzir essa mentalidade de dependência. E não é apenas sobre os chineses. Nós conversamos sobre a Venezuela: todo o programa Petrocaribe era um sistema baseado na dependência. E temos trabalhado muito duro com os países para encontrar fontes alternativas de energia para eles e diversificar a partir dessa mentalidade.

 

P. Então os Estados Unidos buscam se contrapor ao avanço chinês?

Nós vemos isso exatamente como 'contrapor' à China. Nós não queremos uma relação antagônica com a China. O que queremos, no entanto, é que todos nós, toda a comunidade internacional, operemos de acordo com certos padrões, um certo nível de igualdade de condições.

As empresas americanas não podem ser corruptas, certo? E acreditamos que todos os países devem evitar a corrupção, porque vemos os resultados que isso traz. Gostaríamos de ver as empresas chinesas se comportarem da mesma maneira, por isso, estamos procurando essas condições no campo para que os países possam atrair investimentos dos EUA.

Estamos procurando condições através da transparência, da abertura, para catalisar investimentos. E se os chineses quiserem investir e subscrever o mesmo tipo de princípios de transparência, não haverá problema. Mas acho que o mundo abriu os olhos para esse conceito de diplomacia da dívida e há preocupações e rejeições crescentes contra ele.

 

P. Os Estados Unidos terão um papel em um novo cenário na América Latina sem as facilidades de pagamento do petróleo venezuelano?

Com certeza. Eu diria que nos estados livre pensantes e democráticos da América Latina. Ainda há alguns que não se subscrevem aos mesmos valores compartilhados. Mas há aqueles que fazem isso, sim, eu acredito. Investimos dinheiro e há um novo programa, Caribbean Energy Security Initiative (CESI). Anunciamos um programa de garantia de empréstimos que estimula os governos do Caribe a catalisar o investimento privado em seus países. Estamos encontrando novos modelos para ajudar esses países.

Ocorrem muitas coisas nos bastidores para ajudá-los a se preparar para o investimento, de modo que possam aproveitar os recursos e construir algo com relativa rapidez.

 

P. As sanções americanas à estatal petroleira PDVSA não serão um tiro pela culatra para os Estados Unidos, acercando más a Venezuela a China?

As exportações da Venezuela para China são o que chamamos petróleo de devolução (...) da dívida. O regime de [Nicolás] Maduro não está recebendo dinheiro por isso. Por isso não acho que isso os aproxime da China.

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