Venezuelanos correm contra o tempo para salvar alimentos

Os venezuelanos assistem, impotentes, aos alimentos apodrecerem, e travam uma corrida contra o tempo para salvar o que lhes resta em congeladores de residências e restaurantes, devido ao apagão nacional que completou três dias neste domingo.

Vicente Fernández, 54, não abre o congelador de sua casa desde a tarde de quinta-feira. "Na minha residência, a luz não voltou nem por um minuto, deve estar tudo podre", lamenta o comerciante, enquanto pede um cacho de bananas "bem verdes" em um mercado da capital, que funciona na penumbra, com pescarias, leiterias e açougues fechados ou com as geladeiras vazias.

Fernández optou por comprar apenas o necessário para cada dia, com um agravante: os comerciantes locais só aceitam pagamento em dinheiro, muito escasso na Venezuela, onde a maioria das transações é eletrônica.

Após convencer o vendedor de que faria uma transferência bancária, o homem mostra cansaço: "Que nos mandem os marines de uma vez!", pede, referindo-se a uma possível intervenção militar americana para tirar o presidente Nicolás Maduro do poder.

Assim como os remédios e outros artigos básicos, o acesso a alimentos é limitado no país petroleiro, devido ao desabastecimento e ao alto custo causado pela hiperinflação, que o FMI projeta em 10.000.000% para 2019. A comida tornou-se, assim, um dos bens mais valorizados durante a crise, quando o salário mínimo dá para comprar apenas dois quilos de carne.

Muitas pessoas perderam peso. "Agora não importa se é caro, e sim, comer. Temos que sair desta loucura, este governo não serve para nada, roubaram o dinheiro para manter a infraestrutura", denuncia.

 

 

Em uma mesa de seu restaurante, localizado em outro mercado de Caracas, Libia Arraiz espera que a comida que mantém refrigerada não estrague. Diz que, se a luz não voltar, perderá carne, frango e peixe para uma semana.

"Ai, meu Deus! Terei que tirá-la e dá-la, porque vendê-la será impossível. Ou distribuí-la entre a família, para que não se perca tudo", diz a mulher, 60, emocionada. No momento, prepara com os colegas do mercado cafés da manhã e almoços comunitários. Cada um traz o que pode, para salvar algo como "estratégia de sobrevivência".

"Isto é obra das mãos peludas que estão metidas no país. As pessoas da oposição dizem, com descaramento, que tudo isto é necessário para que possam tomar o poder, mas afeta todos nós", critica Libia, culpando pela "sabotagem" o líder parlamentar Juan Guaidó.

"Ele diz que vem coisa pior, que tem outra surpresa. Essa gente não tem consciência, são terroristas de verdade", reclama a mulher, referindo-se a advertências de Guaidó de que vêm pela frente "dias difíceis", com um possível desabastecimento de gasolina.

 

 

Um porco de 80 quilos chega, para a surpresa de muitos, ao açougue onde trabalha Henry Sosa, que o levará para casa, na vizinha Guarenas, onde o fornecimento de energia é intermitente, assim como em outras regiões do país. Sosa conta que perdeu metade de sua mercadoria. "Não deu nem para distribuir. Quem vai comer carne podre?", reclama.

A crise é aproveitada por alguns para fazer dinheiro extra. No setor de El Cafetal, em Caracas, um caminhão vende pequenos sacos de gelo por três dólares, que vizinhos, como María Ribas, pagam com dinheiro enviado do exterior por parentes.

Outros, como María Mendoza, vendem mamões e melancias que em breve estragarão, abrindo mão do lucro e vendendo as frutas a preço de custo, "pelo menos para não perder todo o investimento por causa desta sabotagem e bloqueio dos Estados Unidos".

 

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