Argélia tem sua primavera

Protestos contra candidatura do presidente Abdelaziz Bouteflika voltam a tomar as ruas do país africano

ARGEL - A Argélia viveu ontem mais um dia de intensas manifestações. As ruas foram tomadas por pessoas contrárias à candidatura do presidente Abdelaziz Bouteflika a um quinto mandato nas eleições de abril. Nem mesmo o anúncio de que o dirigente de 82 anos não completaria o mandato caso fosse eleito foi capaz de conter a onda de protestos, em um país que não passou por grandes mudanças durante a chamada Primavera Árabe, em 2011.

"Não ao quinto mandato de Buteflika" foi o grito geral dos manifestantes, que foram em massa às ruas pela terceira sexta-feira seguida. Com uma alta presença feminina, devido ao Dia Internacional da Mulher, o 8 de março na Argélia foi mais um dia de insatisfação contra o presidente do país, apesar da proibição desse tipo de protesto desde 2001. Além dos atos nas ruas, motoristas fizeram "buzinaços" e moradores colocaram a bandeira nacional na janela de suas casas. Nas redes sociais, a hashtag #Movimentodo8deMarço se espalhou nos últimos dias, convocando a mobilização da população nas principais cidades do maior país da África.

Macaque in the trees
Manifestações na Argélia tomam as ruas contra a candidatura do presidente Abdelaziz Bouteflika a quinto mandato. Eleições serão em abril (Foto: Ryad Kramdi/AFP)

Na capital, Argel, dezenas de milhares pessoas marcaram presença. Um grupo de "braçadeiras verdes" foi mobilizado para orientar e monitorar os participantes para evitar incidentes e dar primeiros socorros em caso de uso de gás lacrimogêneo, além de realizar a limpeza pós-ato. Cerca de 200 pessoas foram presas e um número indeterminado ficaram feridos.

Um expressivo efetivo policial foi convocado, com carros de polícia e veículos anti-motim por toda a capital. Segundo a rede "Al Jazeera", apesar das manifestações terem sido pacíficas, a polícia usou gás lacrimogênio para bloquear ruas próximas ao palácio presidencial e em algumas outras áreas da cidade. Estações de trem e metrô foram fechadas pelas autoridades sem explicação. Segundo opositores, o objetivo era dificultar a circulação de manifestantes.


Nassim Bala, um ativista político argelino presente em Argel, disse à "Al Jazeera" que a capital foi tomada por uma "celebração democrática": "as pessoas estão finalmente se expressando contra o governo, que vem reduzindo direitos há décadas".

Em Genebra, Rachid Nekkaz, empresário e adversário político do Bouteflika, foi preso na sexta-feira dentro do hospital onde o presidente se encontra internado desde fevereiro (para realizar "exames regulares") com a intenção de fazer um ato político. A polícia de Genebra confirmou a detenção por invasão de domicílio. 

Na véspera, Bouteflika mencionou a possibilidade de "caos" no país diante das manifestações. Ele comemorou o fato de o "pluralismo democrático ser uma realidade no país", mas alertou sobre "infiltrados".

O governante não fez qualquer menção de sua própria candidatura como gatilho para os protestos, mas em vez disso fez uma referência à necessidade de evitar o retorno à "tragédia nacional", referindo-se à sangrenta guerra civil que se arrastou por mais de 10 anos, entre 1991 e 2002.

O anúncio de sua candidatura em 10 de fevereiro provocou protestos de uma magnitude nunca antes vista contra o chefe de Estado eleito há duas décadas. O dirigente, que sofreu um derrame cerebral em 2013 e raramente aparece em público, é tido como um "fantoche" por muitos manifestantes, que acreditam que o país esteja sendo comandando pelo irmão mais novo de Buteflika, Saïd, pelo chefe do comando militar, Ahmed Gaid Salah, e alguns empresários.

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Bouteflika em uma das poucas aparições públicas desde 2013, durante as eleições locais de 2017 (Foto: Ryad Kramdi/AFP)

Segundo a imprensa, deputados da Frente de Libertação Nacional (FLN), do presidente, renunciaram para se juntar às manifestações. No domingo, Abdelkrim Abada, um dos líderes do movimento de recuperação da sigla, renunciou ao seu posto na direção e disse que "a FLN não tem candidato, não foi a FLN que elegeu esse candidato". Abada disse apoia as manifestações: "só podemos estar com o povo".

 



Manifestações na Argélia tomam as ruas contra a candidatura do presidente Abdelaziz Bouteflika a quinto mandato. Eleições serão em abril
Bouteflika em uma das poucas aparições públicas desde 2013, durante as eleições locais de 2017