Presidente da Argélia desafia manifestantes

Abdelaziz Bouteflika anunciou ontem que vai se candidatar a um quinto mandato

Ryad Kramdi/AFP
Credit...Ryad Kramdi/AFP

ARGEL - Apesar de uma forte onda de protestos contra a apresentação da candidatura do presidente argelino, Abdelaziz Bouteflika, para um quinto mandato presidencial nas eleições de Abril, o governante confirmou ontem o registro. Ele prometeu não finalizar um próximo mandato e convocar uma "conferência nacional", em meio a turbulentas semanas.

O registro da candidatura de Buteflika pela Frente de Libertação Nacional, hospitalizado na Suíça, foi apresentado por seu diretor de campanha, Abdelghani Zaalane. Zaalane leu uma declaração do presidente: "há alguns dias, em resposta a pedidos de cidadãos, da classe política e da sociedade civil, com vista a cumprir uma última tarefa a serviço do nosso país e do nosso povo, eu anunciei minha candidatura à presidência. [Governar] a Argélia é a missão mais honrosa da minha vida".

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Presidente Abdelaziz Bouteflika anunciou ontem que vai concorrer (Foto: Eric Feferberg/AFP)

Buteflika, no poder desde 1999, disse que "escutou e ouviu o clamor sincero dos manifestantes e, em particular, dos milhares de jovens que me perguntaram sobre o futuro do nosso país" e prometeu que, se eleito, não terminará seu mandato e se aposentará depois de uma eleição antecipada, marcada após uma "conferência nacional". Esse processo deve acontecer logo após a consulta de 18 abril e será, segundo ele, "inclusiva e independente" "para formar a base de um novo sistema do Estado nacional argelino, em consonância com as aspirações do povo". O candidato ainda se comprometeu a "elaborar uma nova Constituição que estabeleça uma nova República", que deve passar por um referendo.

O anúncio de ontem foi atacado pelos opositores, que consideram as promessas "farsas" e "vazias". Desde que o governo anunciou a intenção de Buteflika de concorrer a um novo mandato, a Argélia foi abalada por uma onda de protestos sem precedentes em duas décadas, com dezenas de milhares de pessoas nas ruas de um país que proíbe tais manifestações.

As mobilizações começaram em 22 de fevereiro, cerca de duas semanas depois do presidente confirmar seu plano de concorrer, com muitos expressando dúvidas sobre sua capacidade de liderar o país. Em 2013, o líder argelino sofreu um derrame cerebral e desde então têm aparecido pouco em público. Desde o dia 28, ele, que tem 82 anos, está internado no Hospital da Universidade de Genebra, na Suiça, para, segundo o governo, realizar "exames regulares". Segundo a Constituição, todos os candidatos devem passar por um exame médico de aptidão.

Ontem, mais protestos aconteceram e foram entoados gritos de "não ao quinto mandato" e "não a Buteflika, não a Said". Saïd Bouteflika é o irmão mais novo do governante e seu "assessor especial" - muitos desconfiam que ele esteja atuando como verdadeiro presidente.

Os opositores dizem não acreditar nesse processo eleitoral e alguns líderes defenderam boicote, como Ali Benflis, principal oponente de Bouteflika nas consultas de 2004 e 2014. "Meu lugar não está mais em um competição eleitoral que nosso povo denuncia energicamente como parcial e distorcida", disse.

 



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