Buteflika muda chefe de campanha após protestos na Argélia

O presidente da Argélia, Abdelaziz Buteflika, que enfrenta protestos sem precedentes em 20 anos de governo, demitiu neste sábado (2) o seu diretor de campanha, em uma possível resposta às manifestações para que não se apresente a um quinto mandato, em 18 de abril.

O ex-primeiro-ministro Abdelmalek Sellal havia coordenado as três últimas campanhas de Buteflika (2004, 2009 e 2014), embora tenha sido subitamente substituído pelo atual ministro dos Transportes, Abdelghani Zaalane, anunciou a agência oficial APS, que citou apenas a "direção de campanha" do chefe de Estado.

Nenhuma fonte oficial ou ligada ao entorno de Buteflika deu uma explicação para a repentina mudança na condução da quinta campanha eleitoral do presidente, que gerou protestos maciços na capital, Argel, e em outras cidades do país.

A eventual quinta candidatura presidencial de Buteflika deve ser confirmada ante as autoridades eleitorais até meia-noite de domingo (3).

Nenhuma autoridade argelina reagiu oficialmente à impressionante mobilização da sexta-feira (1), quando cidadãos tomaram as ruas em todo o país para expressar sua rejeição a Buteflika, que completa 82 anos neste sábado.

O chefe de Estado está hospitalizado na Suíça há seis dias, oficialmente para "exames médicos de rotina" e o seu retorno ao país não foi anunciado, faltando menos de 48 horas para o término do prazo para apresentar candidaturas, no domingo à meia-noite.

Não há, porém, qualquer regra que diga que o candidato deve comparecer pessoalmente perante o Conselho Constitucional para entregar o seu dossiê.

 

Ao anunciar em 10 de fevereiro a sua candidatura a um quinto mandato presidencial, Buteflika (que está no poder desde 1999) fez desatar uma onda de manifestações nas ruas sem precedentes nos últimos 20 anos no país.

O presidente, que não compareceu diante dos argelinos desde o derrame sofrido em 2013 e cujas aparições públicas são cada vez mais incomuns, sempre de cadeira de rodas, não fez nenhuma declaração desde o início dos protestos.

Nesse contexto, a repentina demissão de Sellal pode ser considerada uma tentativa de evitar que os protestos impeçam a sua nova candidatura.

Zaalane, de 54 anos, que fez carreira na administração de prefeituras, é até agora pouco conhecido pela maioria da população.

Ao longo da semana, o campo presidencial reafirmou que a contestação não vai impedir que as eleições sejam realizadas e que a candidatura do chefe de Estado seja apresenta.

As autoridades "esperam aguentar até domingo, na esperança de que uma vez que a candidatura de Buteflika seja apresentada e as eleições convocadas, a contestação perca força", disse à AFP um observador que pediu anonimato.

É difícil saber se a mobilização excepcional de sexta-feira vai mudar o cenário. "O regime não está acostumado a ceder às ruas", apontou o observador. "Se recuar sobre a candidatura, até onde terá que recuar depois?"

As manifestações aconteceram pacificamente, com exceção de alguns confrontos entre jovens e policiais na sexta-feira em Argel.

O ministro do Interior, Nuredin Bedui, visitou os policiais hospitalizados à noite. Segundo a polícia, 56 agentes e sete manifestantes ficaram feridos nos confrontos em Argel e 45 pessoas foram presas.

O ministro elogiou "o profissionalismo das forças de segurança" e "que todos os cidadãos [...] expressaram seu direito à liberdade de expressão e manifestação".

Um manifestante de 56 anos morreu no tumulto provocado após a intervenção da polícia contra manifestantes, anunciou sua família nas redes sociais, sem especificar as causas da morte.

 

Por enquanto, apenas dois candidatos pouco conhecidos apresentaram oficialmente suas candidaturas, de acordo com a agência de notícias oficial APS: Ali Zeghdud, presidente do minúsculo Reagrupamento Argelino (RA), e Abdelkrim Hamadi, um independente.

O pequeno Partido dos Trabalhadores (extrema esquerda) anunciou a sua decisão de não participar da disputa eleitoral, pela primeira vez desde 2004.

A oposição, silenciada e ausente do movimento de protesto, que nasceu nas redes sociais, tentou eleger em vão um candidato de consenso.

Aparecem como possíveis candidatos: o ex-primeiro-ministro de Buteflika Ali Benfilis, que anunciará no domingo se vai concorrer novamente ou não; o general da reserva Ali Ghediri (sem partido); Abderrazak Madkri, do partido islamita Movimento da Sociedade pela Paz (MSP).

Após a apresentação das candidaturas, o Conselho Constitucional tem 10 dias para validá-las ou rejeitá-las.