EUA e Rússia conversam sobre Venezuela

MOSCOU - Em conversa telefônica entre Mike Pompeo, secretário de Estado americano, e Serguei Lavrov, ministro de Relações Exteriores russo, a Rússia condenou uma "flagrante interferência" dos Estados Unidos na Venezuela e afirmou que estaria disposta a participar de uma mediação internacional do conflito no país. O contato teria partido de Washigton.

Em comunicado, a chancelaria russa afirmou que "a conversa se centrou na situação da Venezuela. Lavrov condenou as ameaças estadunidenses contra seu governo legítimo, o que constitui uma flagrante interferência nos assuntos internos de um Estado soberano e uma grave violação do direito internacional".

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Chanceler russo, Sergei Lavrov, recebeu a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodriguez, na sexta-feira (Foto: Kirill KUDRYAVTSEV/AFP)

O ministro classificou a ajuda humanitária ofertada pelos EUA e considerou que ela é como antidemocrática. "A incitação e a influência externa destrutiva, não tem nada a ver com o processo democrático", disse. Essa semana, o ministro de Relações Exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza, considerou a oferta humanitária como "Cavalo de Troia".

A Rússia, no entanto, manteve aberta uma porta de diálogo com os americanos. Segundo o comunicado, o país se dispõe a consultas bilaterais sobre Venezuela "sempre que se acatem os princípios da Carta da ONU, já que somente os venezuelanos têm o direito de determinar o seu futuro". Ele também afirmou que acordou com Pompeo que vão continuar mantendo os contatos entre especialistas dos dois governos sobre Síria, Afeganistão e Coreias. Pompeo, que teria sido o autor da chamada, não comentou sobre a conversa. Essa semana, o secretário de Estado aumentou as restrições de vistos a pessoas ligadas ao governo Nicolás Maduro.

Na quinta-feira, os dois países voltaram a protagonizar um confronto no Conselho de Segurança da ONU. Os EUA, que reconhecem Juan Guaidó como presidente encarregado, apresentaram uma proposta que avaliava que Maduro provocou um "colapso econômico" e pedia a "entrada sem entraves de ajuda", além de clamar pela celebração de "eleições livres, justas e confiáveis" na presença de observadores internacionais - segundo o documento, as que deram a vitória a Maduro não foram "nem livres, nem justas". O projeto de Moscou, que se mantém firme ao lado dos chavistas, apoiava a "solução política e pacífica" para a crise do país sul-americano e expressava inquietação com "ameaças de uso da força" e "tentativas de intervenção em assuntos internos". Nenhum dos dois conseguiu a aprovação do Conselho.

Tanto o governo quanto a oposição utilizaram essa semana para reforçar laços com apoiadores internacionais. Guaidó, derrotado na tentativa de fazer entrar pela fronteira os suprimentos enviados pelos Estados Unidos, fez uma "tour" por aliados regionais, visitando Colômbia, Brasil, Paraguai, Argentina e Equador. O parlamentar estava proibido pelo Tribunal Superior de Justiça de sair da Venezuela e corre o risco de ser preso quando retornar ao país - que deve acontecer amanhã. Pelo lado chavista, a vice-presidente Delcy Rodríguez foi a Moscou e anunciou ampliação de acordos de cooperação dos russos com Caracas, além da mudança da sede europeia da estatal petrolífera PDVSA de Lisboa para a capital russa. O Kremlin também anunciou que seguirá enviando "ajuda humanitária legítima" ao governo, que prometeu pagar pelos suprimentos.