Intensos combates para expulsar o EI de seu último reduto na Síria

As forças curdo-árabes travavam, neste sábado (2), duras batalhas contra os extremistas do grupo Estado Islâmico (EI) que defendiam o seu último reduto na Síria, no segundo dia da batalha para acabar com o "califado" autoproclamado por esta organização ultrarradical.

Depois de uma ascensão meteórica em 2014 e a proclamação de um "califado" entre o Iraque e a Síria, o EI perdeu seus territórios, e esta última batalha marca o início do fim territorial do grupo extremista.

Neste sábado, Aram Kojeir, um dirigente das Unidades Curdas de Proteção (YPG, que integra as Forças Democráticas Sírias) assegurou à imprensa que os combatentes já haviam rompido o cerco montado pelos extremistas do EI no povoado de Bahguz.

"A operação já está em curso. As forças começaram a entrar no último bolsão do EI", disse.

 

Os jornalistas da AFP perto da linha de frente podiam ver enormes colunas de fumaça preta nas proximidades de Baghuz, na margem oriental do Eufrates, não muito longe da fronteira iraquiana. Ao mesmo tempo, era possível ver aviões de combate sobrevoando a região.

Cercados há semanas em seu último reduto na província oriental de Deir Ezzor, na Síria, os últimos combatentes do EI se entrincheiraram em túneis, em meio a um mar de minas, na periferia leste de Baghuz.

As Forças Democráticas Sírias (FDS), que lideram a luta contra o EI na Síria, comandam esta última batalha para selar o fim do "califado" da organização extremista, acusada de perpetrar crimes contra a humanidade e vários abusos.

"Neste momento, intensos combates estão ocorrendo", afirmou à AFP, pedindo anonimato, um responsável das FDS, que controlam a maior parte de Baghuz.

De acordo com Sdnan Afrin, porta-voz das FDS, "agora é o combate de curta distância, porque a distância entre nós e os extremistas desapareceu".

"Nossas forças avançam por dois eixos" e progrediram "quase um quilômetro" em uma zona intermediária que os separa do reduto extremista, acrescentou.

Nesse movimento, os combatentes das FDS conseguiram controlar uma colina de onde se domina a região onde os extremistas estão entrincheirados.

Três membros dessa força árabe-curda ficaram feridos, indicou outra fonte das FDS.

O último reduto do EI se resume a algumas casas localizadas ao lado de um acampamento informal.

 

"Não podemos estabelecer um cronograma para esta batalha, duas semanas, três semanas ou uma semana, isso dependerá das surpresas que encontrarmos ao longo do caminho", declarou Adnan Afrin, porta-voz das FDS, à AFP.

"Aqueles que não se renderem, seu destino será a morte", acrescentou.

Em um vídeo compartilhado neste sábado pela aliança curdo-árabe, homens armados pareciam escolher onde morar em um prédio abandonado.

Em outro vídeo transmitido no dia anterior, alguns combatentes avançavam na escuridão com o barulho de tanques e tiros ao fundo.

O Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH) confirmou neste sábado o avanço das forças antiextremistas no terreno.

Mesmo assim, ainda há "numerosos túneis" e extremistas armados com "cinturões explosivos", segundo um comandante, que disse esperar que haja inúmeros ataques suicidas.

Para resistir, "o EI tem seus franco-atiradores, bombas e minas", explicou.

Apoiadas por uma coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos, as FDS, implicadas desde setembro nesta ofensiva contra a última fortaleza do EI, teve que suspender as operações há mais de duas semanas para proteger os civis.

Milhares de pessoas, especialmente mulheres e crianças, deixaram a localidade desde então. Desde dezembro, cerca de 53.000 pessoas, incluindo mais de 5.000 extremistas, deixaram o setor, segundo o OSDH.

Na quinta-feira, um porta-voz das FDS, Mustafa Bali, disse que os civis "que ainda estavam lá dentro não querem sair", segundo explicaram alguns civis evacuados.

Se mais civis detidos pelo EI foram encontrados, o ataque em andamento poderia ser interrompido.

 

A grande maioria dos civis evacuados foi levada para o campo de deslocados de Al Hol, na província de Hassaké, mais ao norte, onde vivem em condições que as ONGs descreveram como "duras".

A ONU advertiu que "é necessário urgentemente (...) mais tendas, mantimentos, água, equipes de saúde e médicos".

A perda de Baghuz implicaria o fim territorial do "califado" do EI, mas o grupo já começou a se organizar clandestinamente.

Muitos combatentes fugiram para o deserto da Síria, que se estende do centro do país até a fronteira iraquiana, e continuam a cometer ataques mortais.

De acordo com Adnan Afrin, "o 'califado' desaparecerá geograficamente com o fim de Baghuz, mas ideologicamente e com células [dormentes], este não será o fim".

Além disso, sem um constante compromisso antiterrorista, o EI levaria entre seis e 12 meses para iniciar um "ressurgimento", alertou recentemente o Exército americano.

A guerra na Síria já deixou mais de 360.000 mortos e forçou milhões de pessoas ao exílio.