Armas e leite na bagagem

Mulheres que deixaram último reduto do Estado Islâmico na Síria levam crianças e até armamento escondido

BAGHUZ - Armas, notebooks, moedas de ouro e leite em pó: as jihadistas que abandonam o último reduto do Estado Islâmico (EI) na Síria levam com elas uma bagagem bastante incomum.

As mulheres chegam em grupos ao posto de controle instalado pelas Forças Democráticas da Síria (FDS), a 20 quilômetros da última fortaleza do grupo extremista, a aldeia de Baghuz, perto da fronteira com o Iraque.

Cobertas da cabeça aos pés com véus islâmicos, essas mulheres escondem suas armas sob as roupas ou em suas sacolas, em meio aos poucos brinquedos de seus filhos", contou o combatente das FDS Nawal Kobani, de apenas 18 anos.

"Os homens em geral não usam nada, essas coisas só são encontradas em poder das mulheres", disse ele à AFP em um posto de controle das Forças Democráticas Sírias.

Na segunda-feira, as FDS esvaziaram 46 caminhões lotado de pessoas do último reduto do Estado Islâmico, onde os jihadistas do "califado" resistem. As Forças dizem que querem retirar os civis das áreas controladas pelo EI antes do avanço final contra os jihadistas.

'Nem fotos nem memórias'

Trata-se do último grupo de evacuados a chegar ao posto de controle das FDS no entardecer de segunda-feira passada, todos cobertos de poeira após a viagem para sair de Baghuz. Vestidas com roupas pretas e escuras, um grupo de mulheres se reúne em um círculo no piso rochoso e árido, esperando que lhes ofereçam alguma comida.

Com uma pequena bolsa nas mãos, um menino perambula pelo posto de controle em busca de sua mãe, Wardah. Mais atrás, uma mulher dá atenção ao filho, outra prepara uma garrafa de leite para seu bebê recém-nascido, e uma terceira apenas está sentada, olhando silenciosamente para vazio.

Abeer Mohamad, refugiada síria de 35 anos, nascida na província de Aleppo, abre uma pequena bolsa e retira uma caixa suja de plástico que contém algum leite em pó. "Não trouxe nada comigo exceto algumas roupas e um pouco de leite para o mais novo", disse ela ao lado de seus três filhos. "Também não deixamos nada, na realidade", acrescentou, com o rosto coberto inteiramente por um véu.

É precisamente o uso generalizado dos véus pretos que torna difícil diferenciar uma mulher de outra no acampamento. Uma mulher síria, que pediu para não ser identificada, disse que não carregava "nem fotos, nem memórias, nem nada". "Não trazemos nada mais do que algumas roupas", explica.

Rendição

Cerca de 50 mil pessoas - a maioria mulheres e crianças - saíram de Baghuz desde o início de dezembro, de acordo com a ONG Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH), com sede em Londres. Os primeiros grupos acarregavam grandes malas ao deixar o local, e muitas das mulheres usavam braceletes de ouro nos braços. No entanto, os últimos grupos a chegar não carregam mais do que pequenas bolsas.

Umm Mohamad, 45, também de Aleppo, está sentada junto a um par de muletas. Ela foi ferida há seis meses, quando uma granada explodiu junto à sua casa, em Al Shaafa, um dos bastiões dos jihadistas recuperados pelas FDS. "Hoje, carregamos as roupas que pudemos reunir e as trouxemos com a gente", disse.

Os homens permanecem em silêncio. Ao contrário das mulheres, que fazem incontáveis perguntas ao chegar ao posto das FDS ou gritam pedindo comida, eles esperam silenciosamente em filas, ou se sentam calados no chão.

homens não falam entre si nem fazem perguntas."É impossível fazerem qualquer pergunta. Eles já se renderam", disse Mazlum, combatente das FDS de 29 anos.