Distúrbios estremecem a Venezuela na tentativa de entrada da ajuda humanitária

Intensos distúrbios foram registrados em localidades venezuelanas na fronteira com o Brasil e a Colômbia, enquanto centenas de voluntários tentavam fazer entrar a ajuda internacional de alimentos e remédios, gerida pelo opositor Juan Guaidó, reconhecido como presidente encarregado por 50 países.

Ao menos duas pessoas morreram, uma delas um adolescente de 14 anos, e 31 ficaram feridas, em distúrbios na fronteira entre a Venezuela e o Brasil, onde militares venezuelanos bloqueavam a entrada de ajuda humanitária, informou o porta-voz de um grupo de defesa dos direitos humanos.

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Manifestações na fronteira entre Colômbia e Venezuela (Foto: Federico PARRA / AFP)

"Os dois mortos são resultantes da repressão de militares durante distúrbios em Santa Elena de Uairén. Ambos morreram por impactos de bala, um deles na cabeça", declarou à AFP Olnar Ortiz, ativista na região da ONG Fórum Penal, crítica ao governo de Nicolás Maduro.

Duas ambulâncias cruzaram a fronteira venezuelana rumo a Pacaraima, estado brasileiro de Roraima, trazendo cinco feridos a tiros no confronto com as forças de segurança, a 20 km da fronteira.

Segundo fontes oficiais brasileiras, dois feridos foram levados ao Hospital Geral de Roraima, na cidade de Boa Vista, a 215 km de Pacaraima, e outros três estão a caminho, acrescentou a secretaria de governo de Roraima.

De acordo com as autoridades, o estado de saúde dos cinco é "grave".

Na Colômbia, dois caminhões que transportavam ajuda foram incendiados por grupos de apoiadores do presidente Nicolás Maduro na ponte fronteiriça Francisco de Paula Santander, que liga as cidades de Cúcuta (Colômbia) e Ureña (Venezuela), denunciaram deputados opositores.

"As pessoas estão salvando a carga do primeiro caminhão e cuidando da ajuda humanitária que Maduro, o ditador, mandou queimar", disse a jornalistas a deputada Gaby Arellano, que disse haver 15 feridos leves por balas de borracha e afetados por gás lacrimogêneo.

Dezenas de pessoas tentavam tirar sacos e caixas do caminhão, em meio a uma densa nuvem de fumaça.

"Nossos voluntários corajosos estão formando uma corrente para salvaguardar a comida e os medicamentos. A avalanche humanitária é incontrolável", assegurou Guaidó.

O autoproclamado presidente encarregado está em Cúcuta, coordenando a entrada da ajuda enviada pelos Estados Unidos que há semanas está armazenada na cidade.

Para lançar a operação humanitária, acompanham Guaidó os presidentes da Colômbia, Iván Duque; do Chile, Sebastián Piñera; e do Paraguai, Mario Abdo, assim como o secretário-geral da Organização de Estados Americanos (OEA), Luis Almagro.

Desde o amanhecer, nas cidades de Ureña e San Antonio (ambas no estado fronteiriço de Táchira), manifestantes vestidos de branco, com cartazes que diziam "Ponte do lado correto da história" foram afastados por militares e policiais venezuelanos.

Os manifestantes retiraram as cercas que fechavam as pontes fronteiriças e vários escalaram a carroceria dos caminhões para fazer a ajuda entrar na Venezuela, mas foram dispersos por bombas de gás e tiros de bala de borracha.

Pouco depois, os caminhões foram incendiados, denunciou Guaidó.

 

Ao menos 23 membros das forças de segurança venezuelanas, incluindo 20 militares, desertaram neste sábado e chegaram à Colômbia, informou a autoridade migratória colombiana.

A Polícia colombiana lhes deu proteção e um deles, que usava uniforme da Guarda Nacional Bolivariana, chorou com as mãos para o alto, após agradecer por ter podido cruzar a fronteira.

Guaidó ofereceu anistia aos membros das forças de segurança que romperem com Maduro.

"Os soldados com os quais conversei responderam ao seu desejo de vida e futuro para seus filhos, que o Usurpador não lhes garante. Soldado venezuelano, a mensagem é clara: faça o que te manda a Constituição. Haverá anistia e garantias para quem se colocar ao lado do povo", escreveu no Twitter.

O principal desafio de Guaidó é conseguir quebrar o apoio da força armada a Maduro, até agora a sustentação de seu governo.

 

O lançamento da operação humanitária provocou o anúncio de Maduro do rompimento de relações com a Colômbia, que reconhece Guaidó como presidente encarregado.

"Decidi romper todas as relações políticas e diplomáticas com o governo fascista da Colômbia e todos os seus embaixadores e cônsules devem sair em 24 horas da Venezuela. Fora daqui, oligarquia!", disse Maduro neste sábado a uma multidão em Caracas.

Maduro, apoiado, entre outros países, pela Rússia e a quem o alto comando militar reitera frequentemente sua "lealdade irrestrita", assegurou que nunca renunciará à Presidência.

"Estou mais firme do que nunca, firme, de pé, governando nossa pátria agora e por muitos anos", clamou Maduro, dirigindo-se aos chavistas que marcharam por Caracas sob o lema "Hands off Venezuela" (Tirem as mãos da Venezuela).

"Nunca vou me dobrar, nunca vou me render. Sempre defenderei a nossa pátria com a minha própria vida, se for necessário", assegurou Maduro, insistindo em que o presidente americano, Donald Trump, quer se apropriar das riquezas do país que tem as maiores reservas de petróleo do mundo.

 

As fronteiras da Venezuela com a Colômbia e o Brasil foram fechadas por ordem de Maduro, que considera a ajuda humanitária um pretexto para a intervenção militar dos Estados Unidos.

Guaidó anunciou que o primeiro contingente de ajuda já entrou na região pela fronteira com o Brasil. No entanto, no posto fronteiriço estão estacionados dois caminhões com ajuda, constatou a AFP.

Há outro centro de armazenamento na ilha caribenha de Curaçao, onde voluntários venezuelanos esperam um barco sair apesar de o governo de Maduro ter suspendido as partidas e os voos para esse território.