Caso Odebrecht atinge ex-candidata à Presidência peruana Lourdes Flores

A duas vezes candidata à Presidência peruana Lourdes Flores foi atingida nesta quinta-feira (14) pelo escândalo de contribuições ilegais da empreiteira Odebrecht, pelo qual são investigados quatro ex-presidentes e a opositora Keiko Fujimori está presa.

A líder social-cristã (centro direita) - que nas duas primeiras fases das campanhas de 2001 e 2006 era favorita para se tornar a primeira mulher presidente do Peru - ficou comprometida pelo depoimento de um ex-assessor seu que optou por colaborar com a Justiça.

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Lourdes Flores (Foto: Jaime RAZURI / AFP)

"Investiguem tudo o que quiserem, mas não esqueçam que opiniões antecipadas podem acabar danificando honras", tuitou Flores, negando ter cometido crimes.

Uma conversa por telefone de Flores com seu ex-assistente, o advogado Horacio Cánepa, atualmente processado, foi divulgada pelo Canal 5 de televisão, em um país onde já é tradição que os escândalos de corrupção surjam com a difusão de áudios e vídeos gravados às escondidas.

Na gravação, de 12 minutos, ouve-se Flores inquieta pelo que pode declarar o ex-chefe da Odebrecht no Peru Jorge Barata a procuradores peruanos.

"Tudo dependerá do que perguntarem (a Barata), o que ele vai querer dizer", assinala a ex-candidata à Presidência, de 59 anos.

Cánepa indica que "é preciso esclarecer como entrou (o dinheiro para a campanha), como foi gasto, todas essas chateações precisam ser esclarecidas", e ela responde: "não tenho essa informação (...), nem me lembro, nem posso reconstruir".

 Receber contribuições em dinheiro para uma campanha eleitoral não é crime no Peru sempre que os fundos forem devidamente registrados na contabilidade do candidato. Mas os pagamentos da Odebrecht não eram anotados nos livros dessa empresa, tampouco nas contas dos partidos.

Ao não declarará-los, aqueles que receberam contribuições da empreiteira arriscam condenações de entre oito e 15 anos de prisão por "lavagem de dinheiro". O risco de ir à prisão aumentou agora que a Odebrecht aceitou um acordo de colaboração com a Procuradoria peruana.

Por este escândalo, desde 31 de outubro está em prisão preventiva por 26 meses a líder opositora Keiko Fujimori - também duas vezes candidata à Presidência (2011 e 2016) -, enquanto é investigada por lavagem de dinheiro.

O escândalo também atingiu os ex-presidentes Alejandro Toledo (2001-2006), Alan García (2006-2011), Ollanta Humala (2011-2016) e Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018), todos sob investigação da Procuradoria.

A Odebrecht admitiu em 2016 às autoridades americanas que pagou subornos de 29 milhões de dólares no Peru entre 2005 e 2014.

Segundo meios de comunicação locais, Cánepa teria declarado aos procuradores que a Odebrecht forneceu 500 mil dólares a Flores (supostamente na campanha de 2006). Ele mesmo teria entregue a gravação de sua conversa com ela à Procuradoria.

O diálogo foi "gravado sem o meu consentimento. Diante de seu conteúdo reafirmo o que disso: não existe nenhuma conduta errada", tuitou Flores.

Cánepa espera que a Procuradoria o declare "colaborador eficaz" para evitar uma condenação ou conseguir uma mais reduzida. É processado por receber propina da Odebrecht quando trabalha como "árbitro" que dirimia disputas contratuais entre a empreiteira e o Estado peruano.

Paralelamente, procuradores peruanos estão no Brasil para interrogar ex-diretores da Odebrecht e assinar na sexta-feira um acordo de cooperação, pelo qual a empresa colaborará com a Justiça peruana em troca de imunidade para seus executivos.

A empreiteira também pagará uma reparação civil de 182 milhões de dólares, em um prazo de 15 anos, fixada com base em quatro licitações que ganhou no Peru pagando propinas a funcionários.

Os projetos envolvidos nos escândalos são uma linha do metrô de Lima, os trechos 2 e 3 da estrada interoceânica Sul que liga o Peru ao Brasil, uma rodovia urbana entre Lima e Callao, e uma estrada em Cusco.