Papa fala de fraternidade com os muçulmanos nos Emirados Árabes

Primeiro papa da História a pisar na Península Arábica, Francisco participou nesta segunda-feira (4) de um encontro internacional inter-religioso nos Emirados Árabes Unidos.

Nesta terça-feira, celebrará uma missa inédita na região.

"Estou aqui como um irmão": esta declaração do papa foi reproduzida por toda a imprensa dos Emirados.

O líder de 1,3 bilhão de católicos no mundo teve um encontro com o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Mohammed bin Zayed al-Nahyan, homem forte do reino, que se orgulha da "coexistência pacífica" entre as religiões em seu país.

O pontífice certamente discutiu com ele a situação no Iêmen, país pobre da Península Arábica e palco da pior crise humanitária do mundo, segundo a ONU, por causa de uma guerra devastadora.

Antes de chegar em Abu Dhabi no domingo, o papa pediu aos protagonistas no Iêmen que "promovam de maneira urgente o respeito aos acordos estabelecidos", especialmente para uma trégua na cidade portuária de Hodeida, essencial para a entrega de ajuda internacional.

A população iemenita paga um preço alto e "muitas crianças estão sofrendo de fome", ressaltou.

Os Emirados Árabes Unidos têm sido criticados por ONGs por sua intervenção militar no Iêmen desde 2015, ao lado do regime contra os rebeldes huthis.

Durante sua visita a Abu Dhabi, o papa participou de uma cerimônia militar: caças sobrevoaram o gigantesco palácio presidencial, liberando uma fumaça amarela e branca, cores da bandeira do Vaticano.

Ele presenteou seu anfitrião com uma medalha representando o encontro, em 1929, em plena Cruzada, entre São Francisco de Assis e o sultão Malek al-Kamel no Egito, um marco nos 800 anos de diálogo entre muçulmanos e católicos.

 

 

O argentino Jorge Bergoglio decidiu adotar o nome de Francisco pela preferência de São Francisco de Assis pela fraternidade universal e opção pela pobreza.

O príncipe herdeiro deu ao papa o ato notarial, datado de 1963, oferecendo terras para a construção da primeira igreja nos Emirados.

As autoridades dos EAU reprimem toda a exploração política da religião, especialmente pelos islamitas do movimento da Irmandade Muçulmana.

Em 2014, os Emirados Árabes uniram-se à coalizão internacional antijihadista na Síria e, para mostrar sua "tolerância zero com o extremismo", baniram 83 grupos rotulados como "terroristas".

O papa já convocou o mundo muçulmano - líderes políticos, religiosos e acadêmicos - a condenar inequivocamente o terrorismo, uma fonte de islamofobia.

Depois de declarar 2019 "Ano da Tolerância", os Emirados Árabes Unidos cuidam da sua imagem e se orgulham de ter uma população de mais de 85% de expatriados de todas as nacionalidades e religiões.

"Uma terra que procura ser um modelo de coabitação", segundo o papa.

Mas as autoridades do emirado do Golfo controlam a mídia local, banem partidos políticos e aprisionam opositores, segundo a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, conclamando o papa a levantar a questão dos direitos humanos.

Nesta segunda-feira, o pontífice se reunirá com o grande imã sunita de Al-Azhar, o xeque Ahmed al-Tayeb, a quem ele visitou o Egito em 2017, e que fala duras palavras contra os jihadistas.

O grande imã preside o "Conselho Muçulmano dos Anciãos", uma fundação criada em Abu Dhabi para promover a paz e que é a instigadora do encontro internacional interreligioso.

Cerca de 700 personalidades participarão, incluindo patriarcas das Igrejas católicas orientais e rabinos.

Aos olhos do Vaticano, "o encontro é principla a mensagem" desta 27ª viagem do papa ao exterior.

 

 

O diálogo inter-religioso, particularmente com o Islã, se tornou um tema central do pontificado de Francisco.

No último dia de sua visita, na terça, o papa vai celebrar uma missa no estádio de Abu Dhabi, "evento quase inesperado" para os fieis católicos, em sua maioria trabalhadores imigrantes asiáticos das Filipinas e Índia, descreveu a Santa Sé.

Cerca de 135.000 ingressos foram distribuídos para a cerimônia no estádio. No lado de fora, também deverá haver uma multidão de fiéis, que serão cumprimentados por Francisco em "papamóvel".

Neste país, a presença de locais de culto cristãos frequentados por estrangeiros é tolerada, na condição que estes sejam discretos e evitem o proselitismo.

Cerca de um milhão de católicos vivem nos Emirados Árabes Unidos, cerca de 10% de sua população. O país conta com o maior número de igrejas católicas da região - oito.

Mas celebrações públicas são proibidas. A missa do papa será, portanto, excepcional.

 

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