Multidão de opositores desafia Maduro no 20º aniversário da revolução chavista

Dezenas de milhares de opositores venezuelanos, liderados pelo autoproclamado presidente interino Juan Guaidó, marcham neste sábado (2) para exigir ao presidente Nicolás Maduro que deixe o poder, enquanto outra grande manifestação de governistas celebra os 20 anos de governo chavista.

O início do dia de manifestações, que acontecem em todo o país, foi agitado por um vídeo divulgado nas redes sociais, no qual um general de Aviação da Força Armada não reconhece Maduro, convertendo-se no militar na ativa de maior escalão a reconhecer Guaidó.

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Venezuela (Foto: Federico PARRA / AFP)

"Usurpador, saia já" e "Fora ditador", "Força Armada escuta o povo", eram frases lidas em cartazes que os opositores levavam, que em Caracas se concentram em frente à sede da União Europeia (UE), em Mercedes (leste). "Viva Guaidó", gritaram quando o opositor chegou ao palanque.

Guaidó, líder do Parlamento de maioria opositora que se autoproclamou em 23 de janeiro, convocou a marcha para respaldar o ultimato dado a Maduro por França, Espanha, Alemanha, Reino Unido, Portugal e Holanda para que aceite "eleições livres", ou, do contrário, reconhecerão Guaidó.

"Marcho para recuperar a liberdade e tirar essa tirania, essa narcoditadura", disse à AFP Beatriz Martínez, psicóloga de 75 anos. "Estamos morrendo de fome", manifestou Delia Rivas, de 52.

Outra multidão, dessa vez de governistas, se concentra na Avenida Bolívar, centro da capital. Zaida, que se diz "revolucionária até os ossos", explica à AFP: "Não quero que esses malditos americanos fiquem com as riquezas da Venezuela", manifestou.

"Vão para o caralho, ianques de merda", lia-se em um cartaz na concentração, onde Maduro era aguardado, e que, pelo Twitter, assegurou que "o povo o enche de força para seguir pelo caminho" traçado pelo falecido líder socialista Hugo Chávez.

Na quinta-feira, o Parlamento Europeu reconheceu Guaidó, pressionando a UE. Mas Maduro rejeitou o ultimato - que vence no domingo -, lamentando que a UE siga o governo de Donald Trump.

As manifestações acontecem sob alta tensão: distúrbios deixaram na semana passada 40 mortos e 850 detidos, segundo a ONU.

O 20° aniversário da revolução se completa em plena derrocada do país: hiperinflação, escassez de comida e remédios, e a petroleira Pdvsa em default e com uma produção em queda livre, agora estrangulada pelas sanções dos Estados Unidos, que não descarta uma ação militar e medidas adicionais.

 

O general Francisco Yánez, diretor de Planejamento Estratégico da Aviação Militar, assegurou que "90% da Força Armada Nacional não estão com o ditador, estão com o povo da Venezuela" e que a "transição à democracia é iminente".

A conta no Twitter da Aviação Militar publicou uma foto de Yánez junto com a palavra "traidor". "É um duro golpe para a FANB, embora não tenha comando", disse à AFP a especialista em assuntos militares Rocío San Miguel.

Yánez, que disse ter informações de que "o ditador tem todos os dias dois aviões prontos" para fugir, pediu aos militares que não deem "as costas ao povo", e que os venezuelanos marchem em apoio ao opositor.

Guaidó oferece anistia aos militares que tentarem quebrar o principal apoio do governo, a Força Armada. Na sexta-feira, Maduro voltou a se dirigir aos soldados durante um exercício militar: "leais sempre, traidores nunca".

"Aos outros militares com os quais temos estado em contato durante os últimos dias: chegou o momento de escreverem seus nomes nas páginas da história da Venezuela. A história lembrará como heróis os que tomarem a decisão de apoiar o povo", escreveu no Twitter o senador americano Marco Rubio.

 

Guaidó, de 35 anos, se autoproclamou presidente interino depois que o Congresso declarou Maduro como "usurpador", por ter assumido em 10 de janeiro um segundo mandato, considerado ilegítimo também por parte da comunidade internacional, por resultar de eleições "fraudulentas".

Maduro, de 56 anos, assegura contar com China e Rússia e ser vítima de um golpe de Estado em curso, no qual Washington usa de "fantoche" o chefe parlamentar.

Em declarações ao South China Morning Post, Guaidó promete cumprir os acordos e dialogar com a China. Pequim indicou na sexta-feira que coopera "de forma pragmática" com a Venezuela e que "nada disso será afetado" independentemente de como a situação avançar.

Neste sábado, durante a marcha opositora, Guaidó anunciou que nos próximos dias começará o armazenamento de ajuda humanitária na fronteira com Colômbia e Brasil, e em uma ilha do Caribe, e pediu aos militares que deixem-na entrar no país.

"Já temos três pontos de armazenamento para a ajuda humanitária: Cúcuta (Colômbia) e haverá mais dois, um que estará no Brasil e outro, que estará em uma ilha do Caribe", assegurou do palanque.

O opositor também anunciou, sem detalhes, a criação de uma "coalizão mundial pela ajuda humanitária e liberdade na Venezuela".

"Nos próximos dias começa o armazenamento da ajuda humanitária (...) do necessário para que nosso povo sobreviva (...) Você, soldado (...), terá em suas mãos a decisão" de permitir a entrada, desafiou.

Maduro, que culpa a direita e as sanções americanas pela crise, rejeita a ajuda humanitária, assegurando que abre o caminho para uma intervenção militar, e promete "prosperidade", embora com o mesmo modelo econômico de controle estatal.

Buscando uma saída para a crise, a UE criará um Grupo de Contato de países europeus e latino-americanos de "90 dias" de duração, enquanto México e Uruguai convocaram uma conferência com "países neutros" para 7 de fevereiro em Montevidéu.

Maduro pede repetidamente um diálogo, mas Guaidó insiste que só negociaria a saída do "ditador".