Paraguai completa 30 anos de democracia

O Paraguai celebra suas três primeiras décadas de democracia neste sábado (1). Apesar do forte crescimento econômico, a pobreza não diminui e o partido do ex-ditador Alfredo Stroessner mantém sua presença hegemônica no país.

"Houve um círculo fatal nessa sucessão de governos desde a abertura democrática que fez com que hoje governasse o filho do secretário do ditador (Mario Abdo Benítez)", assinala Alfredo Boccia, autor de vários livros sobre a ditadura do general Stroessner (1954-1989).

Mas por que isso aconteceu? "Por uma singularidade da transição paraguaia. Em 1989 caiu o ditador, mas seguiu no governo o mesmo partido que o sustentou durante 35 anos (Colorado) e a oposição foi incapaz de romper" a sua hegemonia, destaca Boccia.

O Partido Colorado governa o país sul-americano desde o final do século XIX, salvo um mandato presidencial entre 2008 e 2013, quando se aliaram a Frente Guasú e o Partido Liberal, levando Fernando Lugo ao poder.

Antes da chegada de Stroessner, o país teve uma série de governos instáveis, com um sistema de partido único durante muitos anos.

A democracia paraguaia é "de muito baixa qualidade, com altíssimos níveis de corrupção em todos os graus, o que impede que o Estado se modernize e seja eficiente", sentencia o historiador.

Como o governo não previu nenhum ato oficial, ONGs e familiares de vítimas celebrarão em frente ao palácio presidencial o fim da ditadura do general Stroessner, derrubado em 3 de fevereiro de 1989 por um golpe militar.

Após o violento golpe militar, Stroessner foi obrigado a ir para o exílio dourado no Brasil, onde morreu em 2006. Tinha aberto um processo por morte e desaparecimento forçado de opositores.

 

"Trinta anos depois fica um sabor agridoce, porque este é um país com enormes déficits sociais que herdou da ditadura, mas que não soube emendá-los. Continua sendo um país muito pobre e muito desigual, que tenta a construção de uma sociedade participativa", assegura Boccia.

Durante a campanha política do grupo de Abdo Benítez ressoou a frase "Recuperar os postos públicos para os colorados", em contraposição ao sistema de méritos que havia imposto o governo anterior de Horacio Cartes (2013-2018), um rico empresário tardiamente filiado ao Colorado.

Ainda é possível ver nas ruas do Paraguai decalques com a frase "Era feliz e não sabia" dos nostálgicos da ditadura, que sempre asseguram que durante o "stronismo" havia segurança e que as pessoas viviam melhor, com prosperidade. Este último é refutado pelo economista Pablo Herken.

"Somente nos anos 1970, com a assinatura do Tratado de Itaipu, houve uma etapa de grande crescimento econômico, com taxas de 8% a 12%, mas isso acabou em 1981. A partir desse momento foi um desastre", considera o economista.

As reservas monetárias caíram de 900 para 230 milhões de dólares, o "Paraguai entrou em recessão econômica a partir de 1982 e houve tanto roubo que o Paraguai entrou em default em 1986. Não houve outro governo mais corrupto que o 'stronista'", assegura Henkel.

Nos anos 1980, marchas e manifestações contra a ditadura eram frequentes.

A luta política e a insatisfação da sociedade estavam relacionadas ao clima de deterioração econômica. Os empresários sofriam porque o sistema de câmbio múltiplo do dólar gerava uma corrupção extraordinária", assegura Henkel.

Pablo Herken assegura que após o golpe de Estado, em fevereiro de 1989 chegou o "golpe econômico". O governo tomou a decisão do dólar único e isso gerou confiança e levou à baixa do dólar, o que teve um impacto positivo imediato na economia.

Desde 2004, o Paraguai mantém um processo de consolidação ininterrupto. "Nos últimos 15 anos, o crescimento médio era de 4,5%, em um cenário de queda das economias de Brasil, Argentina e com as piores crises da América Latina", explica Henkel.

O Paraguai fechou 2018 com uma taxa de crescimento de 4% e com o menor nível de endividamento em toda a América Latina, segundo a qualificadora Fitch. O setor agroexportador da soja sustenta o crescimento, embora não permita reduzir a pobreza, que em 2017 afetava 26,4% da população.

 

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