Um conflito sem consenso na Venezuela

A crise na Venezuela ainda parece longe do fim. A comunidade internacional já se mostrou dividida, assim como a população. O venezuelano Ali Alvaréz, estudante de mestrado de desenvolvimento social na UFRJ, crê que Maduro não é perfeito, mas que deve seguir no poder e se aproximar das bases populares. Desiree Borges, jornalista que emigrou pro Brasil por falta de remédios, defende uma intervenção dos Estados Unidos e rejeita qualquer possibilidade de diálogo.

O jovem é militante do Movimiento Cultural Campesino Los Arangues e integra a Juventude do PSUV, enquanto a jornalista é muito próxima do Vontade Popular, partido de Juan Guaidó. Motivos distintos os trouxeram pro Brasil e seus posicionamentos são ainda mais divergentes. Ali se diz revolucionário e crê em um aprofundamento da revolução bolivariana do “comandante Chávez”, enquanto Desiree quer ver Maduro bem longe do país.

Desiree, de Caracas, diz que Juan Guaidó é uma nova esperança. “Surgiu uma esperança que a gente não tinha, principalmente entre aqueles que saíram do país”, disse. Para ela, Guaidó não chega para ficar, deve ser presidente por alguns meses apenas para coordenar uma transição. No entanto, crê que uma intervenção militar é a única saída para a crise no país. “Os Estados Unidos tem que intervir, tem que mandar as Forças Armadas. Os militares venezuelanos estão com Maduro porque ele dá dinheiro. Só uma intervenção pode interromper isso”, disse. Questionada se isso não poderia trazer mais problemas, disse que “pode trazer muita morte, mas hoje as pessoas já estão morrendo na Venezuela”.

Ali, do interior do Estado de Lara, vai na contramão desse pensamento e crê que uma intervenção militar seja a pior saída possível. “Essa intervenção não é boa para ninguém. Além de que, os EUA já intervém economicamente, politicamente, psicologicamente. Queremos que seja respeitada a nossa Constituição”, afirmou. Segundo Ali, a escassez de produtos está relacionada com essa intervenção: “O boicote nos deixa sem alimentos, sem remédio. E agora vêm os EUA nos propondo ‘ajuda humanitária’ de 39 milhões, sendo que são os causadores dessa crise”.

A falta de remédios foi um dos motivos para Desiree abandonar o país e vir para o Brasil. Ela aplaude as ofertas de ajuda humanitária. “Não há comida, não há medicamento, a luz acaba, a água acaba. Isso, sem dúvidas, é culpa do governo de Maduro”, afirmou. Por isso descarta qualquer possibilidade de diálogo com o presidente, proposta por México e Uruguai, e defende que ele saia do país. “Nenhum venezuelano quer diálogo. Com Maduro não se dialoga. Mas queremos uma anistia para que ele possa sair do país tranquilamente, como propõe Juan Guaidó”, defendeu. Para Desiree, a convocação de novas eleições, como pede a União Europeia, só pode ocorrer depois dessa anistia.

Já o jovem militante não crê que eleições possam resolver o problema. “Uma intervenção seria terrível, mas as eleições não seriam respeitadas: se eles perdem, vai haver intervenção do mesmo jeito, se eles ganham, vão perseguir a nós, revolucionários - assim como no Chile ou na Guatemala se olharmos para a história”, analisou. Ali defende que a saída é a continuidade de Maduro com “maior incorporação do poder popular - paralelo ao Estado formal - no governo, porque é quem conhece o que o povo sofre”.

Os dois, no entanto, se aproximam quando é feita a comparação entre Maduro e Chávez. Segundo a oposicionista, ele era “muito querido”: “As pessoas iam pra rua quando Chávez convocava, com Maduro não”. O chavista acredita que o maior erro de Maduro foi se afastar do povo. “Houve uma maior burocratização do Estado, o governo se afastou da população, não se consultava tanto as bases”.

*Sob supervisão de Denis Kuck