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Despejo e dívidas: os duros efeitos do 'shutdown' sobre americanos

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"Parem de brincar com nossas vidas". Enquanto Donald Trump e os legisladores democratas se enfrentam acerca do orçamento, funcionários públicos alertam que milhares de trabalhadores afetados pelo "shutdown" têm dificuldade de fechar as contas.

Cerca de 800 mil funcionários públicos federais se preparam para não receber seu pagamento esta semana devido ao fechamento parcial do governo, que começou em 22 de dezembro, uma perspectiva preocupante para muitos deles, especialmente os que têm remunerações mais baixas.

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Donald Trump (Foto: Jim WATSON / AFP)

Trump e o Partido Democrata estão em uma batalha devido ao pedido do presidente por 5,7 bilhões de dólares para construir um muro na fronteira com o México e enquanto os funcionários não essenciais do governo em vários gabinetes federais foram postos em licença forçada não remunerada e não têm perspectiva de receber qualquer pagamento.

Em depoimentos comoventes no Capitólio, a sede do Congresso americano, funcionários de escritórios como a Agência Federal de Gestão de Emergências (Fema, na sigla em inglês) disseram que muitos de seus colegas não vão conseguir pagar a creche dos filhos, a hipoteca ou outras contas.

"Muitos de nossos profissionais são mães solteiras que se veem obrigadas a trabalhar sem pagamento e ainda têm a responsabilidade de pagar pelo cuidado dos filhos e outros gastos, como gasolina para ir ao trabalho", disse Eric Young, representante sindical no Escritório de Prisões, organismo de segurança cujos funcionários têm os salários mais baixos do país.

A segurança também é uma preocupação crescente, disseram nesta quarta no Congresso, onde 20 agentes carcerários federais se reuniram com a presidente da Câmara dos Representantes, a democrata Nancy Pelosi, e seu correligionário líder da minoria do Senado, Chuck Schumer.

"Esta falta de fundos, a falta de pessoal, é muito ruim. Temos secretárias e professores que preenchem, diariamente, os postos oficiais penitenciários", disse Young.

"Se acontecer algo com qualquer um dos profissionais por esta situação, o sangue estará em suas mãos", acrescentou, apontando para o fundo da sala, sem designar nenhum dos grupos políticos como responsáveis.

"Parem de brincar com nossas vidas".

Muitos trabalhadores dependem de cada salário, mas têm vergonha de admitir isso, disse Holly Salamido, funcionária do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano e líder da Federação Americana de Funcionários do Governo (AFGE).

Eles deixam de pagar prestações de carros, correm o risco de seus filhos serem expulsos da creche e enfrentam a possibilidade de serem despejados de suas casas - todos os fatores que podem afetar a classificação de crédito de uma pessoa, o que cria problemas financeiros duradouros.

"As repercussões dessa paralisação são reais e precisamos que o Congresso reabra o governo imediatamente", disse Salamido.

A paralisia orçamentária está prestes a ser a mais longa da história, quebrando o recorde do fechamento parcial do governo de 21 dias entre o final de 1995 e o início de 1996 sob a presidência de Bill Clinton.

Segundo Steve Reaves, um veterano com 23 anos no Exército que trabalha para a Fema, a entidade que esteve encarregada nos últimos meses da administração de furacões violentos e incêndios históricos na Califórnia, os funcionários dessa agência agora não têm trabalho nem pagamento, enquanto muitas vítimas esperam por ajuda.

"Precisamos que o governo abra agora", disse.

O presidente da AFGE, J. David Cox, afirmou que seus membros ganham em média US$ 500 por semana. A ausência do pagamento semanal pode significar uma catástrofe.

"Os funcionários federais estão absolutamente sem reservas no 'shutdown' deste governo", disse ele. "Nós nos recusamos a ser danos colaterais".

Trump, no entanto, alegou ter o apoio de vários funcionários.

Em um discurso solene do Salão Oval na terça-feira, Trump usou um tom dramático para convencer os americanos da necessidade de financiar seu muro de fronteira. Ele não fez menção direta aos funcionários federais.