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Internacional

Para Putin, o Ocidente quer "frear o desenvolvimento" da Rússia

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Vladimir Putin denunciou, nesta quinta-feira (20), o desejo dos ocidentais de conter a "ascensão" e o "desenvolvimento" da Rússia, prometendo uma nova onda de crescimento econômico para seu país em sua coletiva de imprensa anual.

O presidente russo fez seu discurso - que se tornou uma tradição desde que chegou ao poder em 2000 - em um contexto de tensões com o Ocidente, particularmente em torno da intenção americana de se retirar de um tratado nuclear e do incidente armado com a Ucrânia na Crimeia em novembro.

Questionado sobre as sanções ocidentais contra a Rússia, em vigor desde 2014 após a anexação da península ucraniana da Crimeia, Putin assegurou que estavam relacionadas "ao aumento do poder da Rússia".

Em seguida, referindo-se aos escândalos de espionagem e acusações contra o seu país, principalmente o envenenamento na Grã-Bretanha do ex-agente duplo Serguei Skripal, o presidente russo voltou ao mesmo raciocínio.

"Se não houvesse Skripal, teriam imaginado outra coisa. O objetivo é simples: restringir o desenvolvimento da Rússia (visto) como um possível concorrente", disse ele.

Mas Vladimir Putin também deve enfrentar um aumento do descontentamento interno, provocado por uma impopular reforma previdenciária que diminuiu sua popularidade e causou derrotas eleitorais incomuns para seu partido.

Foi justamente sobre a questão econômica que ele começou sua coletiva de imprensa, listando os principais indicadores econômicos do país, assegurando que "a Rússia tem os meios para entrar no top cinco" das economias mundiais.

Ele destacou que a Rússia - 12ª economia mundial segundo o Banco Mundial - cresceu 1,7% nos últimos 10 meses, prevendo um aumento de 1,8% para o acumulado do ano.

Vladimir Putin foi reeleito para um quarto mandato com 77% dos votos em março, mas sua popularidade é agora inferior a 50%.

A Rússia experimentou uma recessão em 2015 e 2016, em meio à queda dos preços do petróleo e às sanções ocidentais relacionadas à crise ucraniana. Desde então, recuperou o crescimento, mas a um nível modesto.

Putin pareceu culpar seu primeiro-ministro Dmitry Medvedev, a quem foi confiada a tarefa de conduzir a reforma da Previdência, mas dizendo estar "globalmente" satisfeito com seu trabalho.

 

 

Sobre a situação internacional, Vladimir Putin alertou para um "colapso do sistema internacional" de controle de armas após o anúncio americano de sua intenção de se retirar do tratado nuclear INF.

O presidente russo disse esta semana que a Rússia desenvolverá novos mísseis se Washington abandonar o acordo, que proíbe a produção de mísseis balísticos com alcance de 500 a 5 mil quilômetros.

Ele, no entanto, considerou que a decisão do presidente Donald Trump de retirar as tropas americanas da Síria, anunciada na quarta-feira, era "justa". "Donald está certo, eu concordo com ele", acrescentou Putin, referindo-se ao fato de que, segundo o americano, o grupo Estado Islâmico (EI) foi derrotado.

Putin também denunciou uma "falta de respeito", sem indicar a quem se referia, pelo voto dos eleitores americanos de Trump e daqueles que apoiaram o Brexit no Reino Unido.

"Trump venceu, é um fato. Mas eles não querem reconhecer essa vitória. É uma falta de respeito pelos eleitores", declarou, comparando este voto ao do Brexit que, segundo ele, "ninguém quer aplicar".

Também mencionou a recente escalada das tensões com a Ucrânia. No final de novembro, a guarda costeira russa capturou três navios militares ucranianos e suas tripulações na Crimeia, no primeiro confronto armado aberto entre os dois países.

Após este incidente, o presidente ucraniano, Petro Poroshenko, introduziu a lei marcial em várias regiões fronteiriças, enquanto Trump cancelou seu encontro com Vladimir Putin à margem da cúpula do G20 na Argentina.

A Rússia, por sua vez, não parou de denunciar uma "provocação" ucraniana, o que Putin reafirmou nesta quinta-feira, acrescentando que "talvez" tenha aumentado a popularidade de Poroshenko em vista da eleição presidencial de março de 2019.

Sobre a criação na Ucrânia de uma Igreja ortodoxa independente da tutela russa, Putin considerou "uma violação flagrante e profunda da liberdade religiosa". "Aconteceu com o objetivo de uma ruptura ainda maior entre os povos russo e ucraniano", acrescentou.

Um concílio de líderes ortodoxos reunido em Kiev decidiu no sábado pela criação desta nova Igreja e elegeu seu primaz, encerrando com 332 anos de tutela religiosa russa sobre a Ucrânia.

Como todos os anos, jornalistas de todo o país e dos cinco continentes competiram para tentar atrair a atenção do presidente russo. Os organizadores, no entanto, pediram aos repórteres que não carregassem cartazes com mensagens humorísticas, absurdas ou provocativas.

Mais de 1.700 jornalistas foram credenciados para esta tradicional "Grande Conferência de Imprensa", a 14ª do presidente russo desde que chegou ao poder em 2000.

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