Premier adverte que novo referendo sobre o Brexit provocaria danos

Decidida a seguir adiante com seu acordo do Brexit, apesar da hostilidade do Parlamento, a primeira-ministra britânica, Theresa May, deve advertir nesta segunda-feira (17) aos deputados que um eventual segundo referendo provocaria um "dano irreparável" à legitimidade política.

"Não vamos quebrar a fé do povo britânico ao tentar organizar outro referendo sobre o Brexit", deve declarar May aos parlamentares esta tarde, de acordo com trechos de seu discurso divulgados por Downing Street.

"Outra votação... provocaria um dano irreparável à integridade da nossa política", argumenta May, ante o crescente apoio à ideia e à ampla rejeição parlamentar ao acordo do Brexit estabelecido com Bruxelas.

Esse argumento se alinha com o de um de seus principais rivais, o ex-chanceler conservador Boris Johnson. "Um segundo referendo provocaria sentimentos de traição instantâneos, profundos e inenarráveis", escreveu ele em sua coluna semanal no jornal Daily Telegraph.

No referendo convocado em junho de 2016 pelo então premiê conservador, David Cameron, 52% dos britânicos votaram a favor da saída da União Europeia.

Cameron estava convencido de que a opção pela permanência no bloco seria vitoriosa.

Quase três anos depois, o país deve sair da UE em 29 de março. Porém, ainda não conseguiu ratificar um acordo que permita a retirada de forma ordenada e com o benefício de um período de transição que permita os muitos ajustes necessários.

A Câmara dos Comuns deveria ter votado em 11 de dezembro sobre o texto de 585 páginas acordado em novembro entre a primeira-ministra e os 27 sócios europeus. Diante de uma evidente derrota, porém, May cancelou a sessão de ratificação um dia antes e a adiou para janeiro, para voltar a conversar com os líderes europeus.

Na cúpula da semana passada em Bruxelas, seus colegas reiteraram a impossibilidade de uma nova negociação, mas a primeira-ministra disse que continuaria as negociações em busca de "garantias" para tranquilizar o Parlamento. Neste segunda-feira, sua porta-voz afirmou que os contatos continuam "em todos os níveis".

Essa informação, no entanto, foi negada pela porta-voz da Comissão Europeia, Margaritis Schinas: "O Conselho Europeu deu os esclarecimentos que poderiam ser dados nesta fase, portanto, não há nova reunião planejada com o Reino Unido".

 

O acordo esbarra na rejeição da oposição trabalhista, dos centristas liberal-democratas, dos nacionalistas escoceses, dos unionistas norte-irlandeses do DUP - apoio fundamental para a maioria parlamentar de May - e de mais de 100 conservadores rebeldes.

O ponto de maior discórdia é o denominado "backstop", ou "rede de segurança", pensado para evitar o retorno de uma fronteira dura na ilha de Irlanda, algo que poderia enfraquecer o Acordo de Paz de 1998, que acabou com 30 anos de conflito violento.

Os defensores do Brexit temem que este mecanismo mantenha o Reino Unido indefinidamente atrelado às redes europeias.

Os ativistas pró-UE alegam que as condições do acordo são piores do que aquelas que o país tem atualmente como membro do bloco.

O próprio governo May admitiu que qualquer modalidade de Brexit terá efeitos negativos para a economia britânica, mas alerta que a pior opção seria deixar o bloco sem acordo. Esse cenário levaria o país a uma crise de grandes proporções.

Neste contexto, cada vez mais vozes apelam a um segundo referendo que permita à população votar, conhecendo agora as condições e consequências da saída da UE.

De acordo com a imprensa britânica, vários membros do governo, entre eles o número 2 da Downing Street, David Lidington, estão se movendo nessa direção nos bastidores.

Já ex-primeiro-ministro trabalhista Tony Blair (1997-2007) afirmou na sexta-feira que, se os deputados "não conseguem chegar a um acordo, a lógica é voltar a dar a voz ao povo".

O comentário foi mal recebido por May, que nesta segunda-feira pretende destacar aos parlamentares que um segundo referendo "dividiria o nosso país justamente no momento em que deveríamos trabalhar pela união".

Mas o simples fato de seu comparecimento ao Parlamento, oficialmente destinado a informar sobre a reunião europeia, ter como objetivo rejeitar a organização de um novo referendo é interpretado por alguns como a confirmação de que esta ideia, que há alguns meses era considerada impossível, ganha força em um país à beira do caos.

"A primeira-ministra tenta descartar a consulta popular porque a cada dia ela é mais provável", disse Amanda Chetwynd-Cowieson, cofundadora do movimento estudantil For Our Future's Sake ("em nome do nosso futuro").

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