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Em meio a incerteza comercial, Argentina busca caminho para estabilidade no G20

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As tensões internacionais sobre o comércio certamente vão dominar a Cúpula do G20, mas a anfitriã Argentina espera fechar um acordo pela estabilidade global, embora as profundas discordâncias persistam.

Em entrevista à AFP, o ministro argentino de Relações Exteriores, Jorge Faurie, disse que a reunião de 30 de novembro e 1 de dezembro em Buenos Aires entre os líderes das vinte potências mundiais deverá destacar a importância dos intercâmbios comerciais, à medida que os velhos diques contra o protecionismo se rompem.

"Estamos dando ênfase à situação do comércio, apenas para nos garantirmos que cresça, que seja estável e que esta visão seja compartilhada pelos atores principais", disse em inglês por telefone.

"Englobamos todas as visões para poder encontrar um espaço comum para todos", afirmou.

Estados Unidos e China, as duas maiores economias do mundo, não dão sinais de ceder em sua guerra comercial, enquanto o presidente americano Donald Trump promete proteger a indústria interna como parte de sua filosofia "Estados Unidos em primeiro".

Trump estabeleceu, com seu par chinês, Xi Jinping, o G20 como data-limite para Pequim reduzir suas barreiras comerciais ou ampliar sua pressão - que já alcança bilhões de dólares em tarifas mútuas.

O G20, um clube formado há uma década em meio à crise financeira, representa 85% da produção mundial. Desde já, Faurie minimizou a importância de qualquer comunicado final. "Algumas vezes, fazemos documentos tão grandes que as pessoas se perdem na leitura", ironizou.

Mas ele afirmou que o rascunho da Argentina, ainda em revisão, era "razoável" e que dar ênfase à estabilidade como parte de uma "perspectiva racional e positiva" sobre o comércio.

Duas grandes cúpulas neste ano, a do Grupo das Sete (G7) democracias mais desenvolvidas e o Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), acabaram sem os tradicionais comunicados conjuntos.

 

Faurie disse que a Argentina, uma economia emergente e o primeiro país sul-americano a receber uma cúpula do G20, pode oferecer um "enfoque fresco" aos líderes mundiais.

A Argentina preside o G20 enquanto seu presidente de centro-direita, Mauricio Macri, executa um plano de austeridade acompanhado de um empréstimo de US$ 56 bilhões do Fundo Monetário Internacional (FMI). O peso se desvalorizou 50% ao longo do ano, e a inflação é estimada acima de 40% até o fim de 2018, enquanto o país enfrenta um enorme déficit fiscal e uma dura seca.

Faurie disse que as reformas estruturais, recebidas com protestos nas ruas da Argentina, têm andado de mãos dadas com o impulso do G20 para o comércio, que poderia encher as contas dos países emergentes.

"É muito importante para nós ter algum tipo de estabilização do comércio, porque dependemos desta possibilidade de comércio para ter mais produção e empregos", acrescentou.

 

O G20 será histórico pois marcará uma simbólica reconciliação entre Argentina e Reino Unido, que se enfrentaram em uma guerra em 1982 pelas ilhas Malvinas, no Atlântico Sul, conhecidas como Falklands por Londres.

Theresa May será a primeira primeira-ministra britânica a visitar Buenos Aires desde a guerra. Tony Blair passou brevemente pela Argentina em 2001, quando cruzou a fronteira brasileira nas cataratas do Iguaçu.

Faurie disse que a Argentina está comprometida a colaborar mais com o Reino Unido, desde o comércio e a preservação ambiental a conectar melhorar a Argentina com suas ilhas, onde vivem cerca de 3.000 pessoas, culturalmente ligadas ao Reino Unido.

"Tentamos mostrar que, apesar da discussão sobre a soberania das Malvinas, temos muito em comum em outras áreas bilaterais e temos que fazê-las crescer", afirmou.

Quanto à soberania das ilhas - que Londres se recusa a negociar - Faurie disse: "Você tem que ser muito paciente".

A Argentina lidera a cúpula enquanto os outros dois membros latino-americanos do G20, Brasil e México, passam por transições presidenciais, voltando-se para a esquerda e para a direita, respectivamente.

Faurie rapidamente rejeitou qualquer sugestão de que o G20 será uma tentativa de a Argentina reclamar a liderança regional. Ele afirmou que colabora de forma próxima com o Brasil e o México para cumprir a agenda e destacou que seu país convidou o vizinho Chile para a reunião.

"Não se trata de liderança, mas de fazer a coisa certa neste momento", afirmou.

 

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