Trump prioriza relação com Arábia Saudita a caso Khashoggi

O presidente americano, Donald Trump, disse nesta terça-feira que o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi por agentes sauditas não atrapalhará a "firme" relação entre Washington e Riade, inclusive se o príncipe herdeiro Mohamed bin Salman for apontado como o responsável.

"Pode ser que o príncipe herdeiro tivesse conhecimento deste trágico acontecimento, talvez ele tivesse ou talvez não tivesse", disse Trump em um comunicado. "Pode ser que a gente nunca fique sabendo sobre todos os fatos que cercam o assassinato de Khashoggi", acrescentou.

"Em todo caso, nossa relação é com o reino da Arábia Saudita. (...) Os Estados Unidos pretendem permanecer como um sócio firme da Arábia Saudita", afirmou o presidente americano.

Trump listou as razões que tornam essa aliança estratégica: a luta contra o inimigo comum Irã, o combate ao "terrorismo islâmico radical", a compra de armas americanas ou igualmente a estabilidade dos preços do petróleo, do qual Riade é o primeiro exportador mundial.

Segundo Trump, as agências americanas de inteligência "continuam analisando toda a informação". Mas vários jornais americanos, entre eles o Washington Post, com o qual Jamal Khashoggi colaborava, reportaram que a CIA já não tem dúvidas sobre a culpabilidade de Mohamed bin Salman, o poderoso filho do rei saudita.

Khashoggi, que vivia nos Estados Unidos, foi assassinado em 2 de outubro no consulado saudita de Istambul.

O assassinato danificou a imagem do reino saudita e de Mohamed bin Salman, visto por muitos no Ocidente como um agente de modernização. Muitos especialistas consideram impossível que o poderoso "MBS" não estivesse a par da operação.

A maioria dos executores do crime já foram identificados, e na semana passada Washington decidiu impor sanções a 17 deles, em um momento em que a justiça saudita anunciava uma série de incriminações.

O Congresso americano, incluindo os republicanos, pressiona Washington para ir além e sancionar os promotores do assassinato.

"Entendo que há membros do Congresso que, por razões políticas ou outras, quiseram ir em uma direção distinta, e são livres para fazer isso", afirmou Trump em seu comunicado. "Considerarei todas as ideias que me apresentarem, mas só se estiverem em conformidade com a segurança absoluta dos Estados Unidos", acrescentou.

O Washington Post respondeu que Trump colocou "relações pessoais e interesses comerciais acima dos interesses americanos".

 

A imprensa americana informou que a CIA concluiu com "alta certeza" que o príncipe herdeiro havia ordenado o assassinato.

Mas, nesta terça-feira, Trump disse que a CIA não encontrou "nada definitivo".

"A CIA analisou o assunto, eles não têm nada definitivo", disse ele a repórteres na Casa Branca.

John Brennan, ex-diretor da CIA e crítico ferrenho de Trump, respondeu pelo Twitter: "Dado que o Sr. Trump se destaca em desonestidade, agora cabe aos membros do Congresso obter e tornar públicas as descobertas da CIA sobre a morte de Jamal Khashoggi".

A senadora opositora Jeanne Shaheen disse que a manobra da Casa Branca demonstrou "o hábito do presidente Trump de ficar do lado de ditadores estrangeiros assassinos sobre os profissionais de inteligência americanos" e chamou isso de "mancha" para a democracia.

Contudo, o secretário de Estado Mike Pompeo concordou com Trump, afirmando que o relacionamento de Washington com os sauditas está acima desse assassinato sangrento.

"Este é um mundo ruim e desagradável, o Oriente Médio em particular", disse ele a repórteres. "É obrigação do presidente, na verdade também do Departamento de Estado, garantir que adotemos políticas que promovam a segurança nacional dos Estados Unidos. Como o presidente disse hoje, os Estados Unidos continuarão a ter um relacionamento com o Reino da Arábia Saudita. É um importante sócio nosso".