De um lado e do outro da fronteira de Gaza, espera-se pelo pior

Os ataques israelenses mantiveram os palestinos de Gaza em vigília durante toda a noite, diante do temor de uma nova guerra devastadora, enquanto que, a vários quilômetros dali, do outro lado da fronteira, dezenas de milhares de israelenses se refugiaram fugindo dos mísseis.

Aviões de combate israelenses continuaram atacando Gaza na manhã desta terça-feira (13), e por terra, escavadoras retiravam os escombros dos bombardeios que ressoaram durante toda a noite no enclave palestino, reduzindo a ruínas prédios de vários andares.

"Não há mais mercados, nem farmácias, nem escritórios, nem muros, nem edifícios", lamentou um morador à Al-Aqsa TV, emissora de televisão do Hamas, grupo islamita que controla o enclave.

"Houve um tremor de terra", acrescentou. Diante dele, duas antenas parabólicas emergem de muros reduzidos a escombros e de um monte de ferro velho, tudo o que resta de um edifício pulverizado pelos ataques aéreos.

Os clarões dos bombardeios, seguidos de fortes explosões, se sucederam em um ritmo constante desde o anoitecer de segunda-feira.

 

Muitos moradores não tiveram mais que poucos instantes para fugir de casa e ficaram na rua sem um refúgio seguro.

"Desde que vimos os mísseis, corremos para fora de casa. Somos civis, não temos armas, nem mísseis", disse Mohammad Aboud, que mora em frente ao hotel al-Amal, no centro. O edifício, que abriga a sede da segurança interna do Hamas há um ano, foi destruído por Israel na noite passada.

A uns 20 km dali, do outro lado da fronteira, os mais de 128.000 habitantes da localidade de Ashkelon também passaram a noite anterior sob o fogo dos mísseis.

"Minhas filhas estão traumatizadas, isto é insustentável", afirmou Meir Edery, pai de três filhos.

O último andar do edifício, que fica em frente a ele, ficou destruído ao ser atingido por um míssil no qual morreu um trabalhador palestino e uma israelense ficou gravemente ferida.

Segundo o porta-voz da Polícia, os israelenses não tiveram mais de 30 segundos para buscar um local seguro depois de soar o alarme.

"Exigimos do governo poder educar nossos filhos em um ambiente seguro, é nosso direito mais elementar", afirmou M. Edery, enquanto os vizinhos pediram para "destruir o Hamas".

Ao longo do porto, quase todas as lojas estão com persianas baixadas. Sob o céu azul, Nissim Arzoane, de 65 anos, veio pescar, como faz todos os dias. "Temos que demonstrar que não temos medo", afirmou.

Sentado em um dos poucos cafés abertos, David Cohen pede ao Exército para reagir "sem medo". "Não vão nos destruir", afirmou.

 

As autoridades israelenses determinaram o fechamento dos colégios e das creches.

Betty Calvo, de 63 anos, não conseguiu pregar os olhos em toda a noite. Aconselhou por telefone ao seu neto, Nahman, de 9 anos, que mora em uma localidade próxima à Faixa de Gaza, "que se resguardasse quando a sirene soar".

Ele contou "ter visto passar mísseis no céu".

"Você acredita que é normal uma criança dessa idade contar esse tipo de coisas para sua avó?", perguntou. Está preocupada de que a escalada não retroceda.

Em Gaza, centenas de edifícios que foram destruídos na guerra de 2014 com Israel ainda não foram reconstruídos.

A região, submetida a um severo bloqueio e gravemente afetada pelas três guerras travadas entre o Hamas e Israel desde 2008, teme um novo conflito devastador.

"Ainda não esquecemos da última guerra de 2014, os rastros ainda são evidentes", lembrou em declarações à AFP Mohamed Boulboul. "As pessoas estão cansadas de guerra. Já chega!".