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Em Riad, um fórum econômico ofuscado pelo caso Khashoggi

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A Arábia Saudita está em crise após o assassinato "abominável" do jornalista Jamal Khashoggi, reconheceu nesta terça-feira (23) o poderoso ministro da Energia, Khaled al-Faleh, ao inaugurar em Riad um fórum de investimento internacional, boicotado por líderes estrangeiros e empresariais.

Estritas medidas de segurança foram adotadas no hotel Ritz-Carlton, local do fórum que deveria incentivar o investimento no reino historicamente fechado, mas que foi completamente ofuscado pela subsequente reação internacional ao assassinato do jornalista e opositor saudita.

"Estes são dias difíceis, estamos em crise", declarou Faleh aos participantes do Future Investment Initiative (FII), que acontece até quinta-feira. O assassinato de Khashoggi "é abominável e ninguém no reino pode justificá-lo", ressaltou o ministro saudita.

Após garantir que Jamal Khashoggi saiu vivo em 2 de outubro do consulado saudita em Istambul, a Arábia Saudita finalmente reconheceu que ele foi morto dentro da missão diplomática, mas negou qualquer envolvimento do jovem príncipe Mohammed bin Salman, visto como o homem forte do reino.

A presença do príncipe herdeiro na conferência não foi confirmada. No ano passado, ele foi aclamado durante o lançamento da primeira edição do fórum como um jovem visionário, líder de uma Arábia Saudita "aberta e moderna".

 

 

No entanto, este ano, a conferência, apelidada de "Davos do deserto", viu a lista de participantes encolher à medida que as revelações macabras no caso Khashoggi manchavam a imagem do reino, o principal exportador de petróleo para o mundo.

Na véspera do fórum, o príncipe herdeiro recebeu o secretário americano do Tesouro, Steven Mnuchin, em turnê pela região, mas que desistiu de comparecer ao evento depois do caso Khashoggi.

Outros líderes também se retiraram, entre eles o ministro francês da Economia, Bruno Le Maire, e a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, além de cerca de vinte CEOs de empresas internacionais, como EDF, HSBC, Siemens e Uber.

Poucos foram os que decidiram comparecer, como o CEO da gigante do petróleo Total, Patrick Pouyanné, que enfatizou a importância de manter contato "em tempos difíceis": é nesses momentos que "você realmente fortalece parcerias".

Empresas russas e chinesas também estão presentes no fórum.

Depois de considerar a versão saudita credível, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sob pressão nos Estados Unidos para agir contra seu aliado saudita, afirmou na segunda-feira não estar satisfeito com as explicações de Riad.

 

 

Sem trazer elementos realmente novos, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan afirmou que o assassinato do jornalista havia sido "planejado" dias antes e que as câmeras de segurança do consulado foram desativadas.

"A consciência internacional só será aplacada quando todas as pessoas envolvidas, desde os executores até os mentores, forem punidos", disse ele ao grupo parlamentar de seu partido.

O ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, Adel al-Jubeir, disse que a "operação" contra Jamal Khashoggi não foi "autorizada" pelo governo e que Mohammed bin Salman não foi informado. Ele também garantiu que não sabia onde estava o corpo do jornalista.

Mas, segundo o jornal turco Yeni Safak, o líder de um comando saudita de 15 agentes enviados a Istambul para matar o jornalista esteve em contato direto com o escritório do príncipe herdeiro depois do "assassinato".

Nesta terça-feira, Jubeir afirmou que medidas serão tomadas para garantir que um assassinato como o de Jamal Khashoggi "não aconteça de novo".

Antes do caso Khashoggi, a imagem do príncipe herdeiro, a quem o rei Salman delegou os assuntos do dia-a-dia do reino, já havia sofrido um golpe com ondas de prisões de empresários, ativistas e dignitários religiosos.

Além disso, a Arábia Saudita, à frente de uma coalizão militar desde março de 2015 no Iêmen contra os rebeldes, foi acusada de múltiplos "erros" que causaram a morte de civis.

O caso Khashoggi também reviveu o debate sobre uma nova análise das relações com Riad, particularmente no que diz respeito à venda de armas. Berlim pediu aos europeus que suspendam qualquer novo acordo de armas com o reino até que esclareça a morte de Jamal Khashoggi.

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