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Opositores sauditas temem 'o longo braço' de Riad após morte de jornalista

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O assassinato do jornalista Jamal Khashoggi assustou muitos dissidentes sauditas no exílio, com alguns revelando as tentativas de Riad de atraí-los para "armadilhas" em embaixadas para pressioná-los e retornar ao reino.

Khashoggi, um crítico do poderoso príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, foi morto em 2 de outubro no consulado saudita em Istambul durante uma aparente tentativa de repatriação forçada que deu errado, segundo fontes próximas ao governo.

Exilados sauditas em três países diferentes relataram abordagens semelhantes para atraí-los para missões diplomáticas do reino.

Omar Aziz, um saudita de 27 anos no exílio no Canadá, irritou as autoridades sauditas com um programa satírico no YouTube.

Ele afirmou que foi abordado no início deste ano por autoridades sauditas que o incentivaram a segui-los até a embaixada para buscar um novo passaporte. "Eles disseram: 'só vai levar uma hora, venha conosco'", contou ele em um vídeo no Twitter.

Ele se recusou a ir, temendo uma armadilha. Dois de seus irmãos e vários amigos foram posteriormente presos no reino, confirmando suas suspeitas.

O jornal Washington Post, com o qual Khashoggi colaborava, declarou que recebeu de Omar Abdelaziz gravações de suas conversas com esses funcionários, que ele registrou em segredo.

 

 

Abdallah al-Ouda, um associado da Universidade de Georgetown nos Estados Unidos e filho do proeminente pregador Salman al-Ouda, atualmente na prisão, afirmou ter sido alvo de uma "conspiração" similar.

No ano passado, quando solicitou a renovação de seu passaporte na embaixada saudita em Washington, foi instruído a retornar ao reino para cumprir o que pareciam ser formalidades.

"Eles me ofereceram um 'passe temporário'", declarou Al-Ouda à AFP. "Eu sabia que era uma armadilha e saí com meu passaporte vencido".

Todos os testemunhos apontam para o aumento dos esforços da Arábia Saudita para prender os críticos do governo no exterior ou instá-los a voltar, já que Mohammed bin Salman, de 33 anos, se tornou príncipe herdeiro em junho de 2017.

O Ministério da Informação da Arábia Saudita não respondeu a pedidos de comentários, mas fontes próximas ao regime fizeram alusão a um programa para trazer dissidentes de volta ao reino.

"MBS provavelmente autorizou uma repatriação (de Khashoggi) que, se for o caso, foi equivocada, mas os líderes e os governos cometem erros, às vezes horríveis", declarou no Twitter Ali Shihabi, diretor da Arabia Fundation, grupo de reflexão próximo do poder.

Jamal Khashoggi, de 59 anos, exilou-se nos Estados Unidos no ano passado. Ele foi morto ao entrar no consulado do reino em Istambul para formalidades administrativas para seu casamento com uma turca.

Depois de duas semanas de indignação internacional, Riad finalmente admitiu no sábado o que inicialmente havia negado: Khashoggi foi morto dentro do consulado.

"A mensagem mais poderosa e assustadora é que ninguém está a salvo da brutalidade da Arábia Saudita", disse Sherif Mansour, do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, com sede nos Estados Unidos.

Antes do assassinato, um assistente do príncipe herdeiro contactou Khashoggi nos últimos meses para lhe oferecer um cargo no governo, se ele retornasse à Arábia Saudita, contou à AFP um amigo do jornalista.

Khashoggi recusou, temendo uma armadilha, acrescentou.

 

 

Manal al-Sharif, uma ativista saudita exilada na Austrália, disse que escapou por pouco de uma armadilha em setembro do ano passado, quando Saud al-Qahtani, assessor de imprensa da corte real, tentou atraí-la para a embaixada da Arábia Saudita.

"Sem a bondade de Deus, eu teria sido (outra) vítima", escreveu no Twitter a opositora, que publicou uma captura de tela de mensagens privadas com Qahtani, que foi demitido no contexto do caso Khashoggi.

O número de solicitantes de asilo da Arábia Saudita mais do que duplicou desde que o príncipe Mohammed chegou ao poder, de 575 em 2015 para 1.256 em 2017, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

O assassinato de Khashoggi causou um verdadeiro susto entre os exilados. "A terrível história de Jamal Khashoggi mergulhou muitos dissidentes em estado de choque", declarou Amani al-Ahmadi, uma exilada de 27 anos em Seattle, Estados Unidos.

"Muitos ativistas no exterior não falam, temendo pôr em perigo suas famílias, perder sua bolsa de estudos ou, pior ainda, ser sequestrados e presos", alerta.

Outros também temem o que chamam de tiranos on-line, aqueles leais ao poder saudita que costumam assediar os críticos do regime nas redes sociais, um plano de ação projetado por Qahtani de acordo com o New York Times.

 

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