Condenação de jornalistas em Mianmar mancha ainda mais o nome de Suu Kyi

A condenação a sete anos de prisão de dois jornalistas da Reuters que estavam investigando o genocídio dos rohingyas pelo Exército birmanês constitui outro golpe para a líder Aung San Suu Kyi.

A prêmio Nobel foi acusada na semana passada pelo alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra'ad Al Husein, de se converter na "porta-voz do Exército birmanês", posto que se negou a tomar uma posição a respeito, algo que incomoda no exterior.

Nesta segunda-feira (3), tampouco reagiu à dura sentença contra os jovens jornalistas da Reuters, que, não obstante, criticaram publicamente o seu governo depois de ouvir o veredito.

"O governo pode nos prender (...) mas não pode fechar os olhos e os ouvidos do povo", lançou um dos condenados, Kyaw Sie Oo, após este polêmico julgamento em um país onde a independência do Poder Judiciário é muito questionada.

A ex-dissidente, que passou muitos anos em prisão domiciliar durante o governo da junta militar, que esteve no poder até 2011, até pouco tempo era comparada com Dalai Lama, Nelson Mandela ou Martin Luther King.

Mas preocupada em manter o "status quo" do ainda poderoso Exército, ela e seu governo são acusados em um relatório de especialistas da ONU, publicado na semana passada, de obstruir sua investigação e apoiar o Exército incondicionalmente.

Bill Richardson, diplomata americano que abandonou solenemente uma comissão encarregada do dossiê rohingya, integrada pela própria Aung San Suu Kyi, recentemente destacou a reação "de plena fúria" desta última quando trataram o destino dos dois jornalistas durante uma reunião há alguns meses. Chegou ao ponto de chamá-los de "traidores".

O ex-diplomata tailandês Kobsak Chutikul, que desde então também abandonou a comissão, confirmou que o ambiente naquela reunião foi muito "tenso".

Desde a vitória do seu partido no final de 2015 e sua chegada ao poder em 2016, Aung San Suu Kyi não desmontou o papel propagandístico do Ministério da Informação herdado da junta militar.

O jornal oficial, controlado por este ministério, "Global New Light of Myanmar" continua denunciando a cobertura da tragédia dos rohingyas no exterior como "fake news". Aung San Suu Kyi, por sua vez, denunciou o "iceberg da desinformação" dos meios de comunicação ocidentais.

Para Aaron Connelly, especialista em Mianmar do Instituto Lowy, na Austrália, as desculpas dadas por Aung San Suu Kyi, que não tem o menor controle sobre um Exército politicamente poderoso, são "um mito".

Argumenta que outros assuntos, apesar de os Ministérios de Interior e Defesa serem controlados pelo Exército, algumas vezes acabaram sendo uma política inteligente para amolecer os generais.

Mas neste país de maioria budista, onde os rohingyas têm sido marginalizados há décadas, a dirigente não estaria convencida da pertinência de defender os direitos desta minoria muçulmana.

"A aceitação por parte de Aung San Suu Kyi do julgamento dos jornalistas da Reuters é indesculpável, assim como o seu silêncio a respeito deste assunto. Enquanto a chefe de governo 'de fato', Aung San Suu Kyi, poderia sem dúvidas colocar um ponto final neste processo 'kafkiano'", segundo Andrea Girogetta, representante da Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH) na Ásia.