Com poucas opções para viver, o autossacrifício é comum em Herat

Esta é uma forma comum de suicídio em Herat, em parte porque asferramentas estão facilmente disponíveis. A pro- ximidade com o Irã pode ex- plicar o motivo. O país vizinho compartilha acultura doau- tossacrifício por queimadura. No início deoutubro, 75 mu- lheres tiveram queimaduras – a maioria autoimposta,outras apenas feitas para parecer des- ta forma. A taxa aumentou qua- se 30% desde o ano passado. Os números dizem menos do que as histórias dos pacientes. Naregião, évergonhosoad- mitir problemasem casa,e doenças mentaisgeralmente nãosão diagnosticadasetra- tadas. Gul, dizem funcionários do hospital, pr ovavelm ente so- fria dedepressão. Asopções para as mulheres afegãs são muito restritas: a família é o seu destino. Oportunidades de educação e opçõesde marido são mínimas, e o papel dentro decasase resumeaservira família domarido. Foradesse mundo, ela é um pária.

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– Sefugir decasa, amulher pode ser raptadaou presa, e enviada para casa. E depois, o que acontecerá? – argumenta Rachel Reid, pesquisadora da ONGHuman RightsWatch, que combatea violênciacon- tra a mulher. Quandovoltam, sãobalea- das ou esfaqueadas porque as famílias tememque tenham vivido com outro homem. As que se queimam e sobrevivem são relegadas àvida de Gata Borralheira, enquanto os ma- ridos se casam com outras mu- lheres, supostamente puras. – A violência nas vidas dessas mulheresvemde todasaspar- tes: do pai, do irmão, do marido, dos sogros e da cunhada – conta Shafiqa Eanin,cirurgião plás- tico do hospital, que costuma ter,deuma sóvez,pelomenos dez casos de mulheres que ten- taram o suicídio com fogo.

Subestimada

Comprometida aosoito anos e casada aos 12, Farzana deci- diu atearfogo emsi mesma quando o sogroa subestimou, dizendo que não tinha coragem para fazê-lo. Ela tinha 17 e atu- rou anosde maus-tratosda fa- mília do marido e do próprio. Hostil e deprimida, a jovem foiatéo quintal.Entregouao marido a filha de 9 meses para que nãovisse a mãeem cha- mas. Em seguida, despejou gás de cozinha no corpo. – Estava tão triste, com essa dornomeu coração,esentia raivadomeu maridoedos meus sogros, entãoateei fogo no meu corpo – conta. A históriade Farzanaresu- me-se a desespero e aos extre- mos quea famíliado marido impõe às esposasdos filhos. Estatísticasda ONUindicam que pelomenos 45%das mu- lheres afegãsse casamantes dos 18 – uma porcentagem sig- nificativa antesde completa- rem 16. Muitas são oferecidas como pagamento de dívidas. Jovem brilhante, fã da língua dari e de poesia, Farzana sonha- va em serprofessora. Foi, con- tudo, prometida em casamento ao filho da família, que oferecia uma esposa ao irmão. O futuro marido de Farzana tinha 14 anos na época do casamento.

Sem voz ativa, mulheres são violentadas por qualquer parente, e não têm oportunidade de fugir

Lynsey Addario / The New York Times

DESESPERO

– Hanife, 15, é atendida com o corpo enfaixado no único hospital do país que trata de queimaduras