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Emílio Domingos lança clipe de Yuka, prepara novo documentário e fala da evolução do passinho

Jornal do Brasil MÔNICA LOUREIRO MONICA.LOUREIRO@JB.COM.BR

Depois de perceber quantos projetos realizou nos últimos tempos, os que estão em andamento ou sendo planejados, o documentarista Emílio Domingos brinca, dizendo que está na hora de tirar férias. Com o olhar sempre voltado para temas sociais, com foco principal nos movimentos vindos das favelas, ele já fez filmes sobre o rap carioca e o passinho - ele foi um dos primeiros a registrar a dança, em 2013 - além de ter criado um site de referência e uma websérie sobre o passinho. Hoje, ele lança o clipe “Dali”, do disco “Canções para depois do ódio”, de Marcelo Yuka. “Ele teve a ideia e me convidou para fazer o clipe, que tem imagens dos meus documentários”, conta Emílio sobre o trabalho que tem participação de Black Alien e está disponível no site Vevo. 

Curador do festival Visões Periféricas, do Documenta-se Cineclube e proprietário da produtora Osmose Filmes, ao lado dos sócios Clarice Saliby e Yan Motta, Emílio diz que se encantou pelo rap na adolescência. No início, era interesse antropológico, depois se tornou cinematográfico. “No final dos anos 1990, resolvi fazer filmes. Trabalhei como pesquisador e roteirista, aprendi muito, mas queria ter outros tipos de experiência: tirar as câmeras das classes alta e média e registrar manifestações genuinamente populares”, conta.

“A palavra que me leva além - Estórias do hip hop carioca”, de 2000, foi seu primeiro curta e mostrava MCs e grafiteiros. Trabalho que o levou a se aprofundar no universo dos MCs em 2007, com o lançamento do primeiro longa, “L.A.P.A.”, em parceria com Cavi Borges, entrevistas com rappers, como Marcelo D2 e BNegão, Marechal, MC Funkeiro, MC Chapadão, Aori, Kelson e Cheap. 

Mesmo próximo ao universo do rap que, quando chega ao Brasil, torna-se imediatamente cultura de favela - “O Chuck D, do Public Enemy, dizia que ‘o rap é a CNN do gueto’”, lembra Emílio, que sempre se surpreende com a constante transformação cultural dentro das comunidades. Foi assim quando ouviu falar, em 2008, do “passinho do frevo”, uma junção da cultura popular com a da favela. “Me surpreendi com a dança e percebi que era uma febre, até alunos de escolas públicas usavam os intervalos para promoverem as ‘batalhas’”, diz. 

Em 2011, dançarinos o convidaram para ser jurado de uma batalha do passinho entre as comunidades do Andaraí, Borel e Salgueiro. “Fui com a ideia de também fazer um curta. No segundo dia, decidi que seria um longa”, conta Emílio Domingos, que ali começava a filmar seu documentário “A batalha do passinho”: “Era um ambiente extremamente complexo: o baile funk como laboratório de criação, a internet criando laços e consolidando uma incrível estratégia de marketing e o pacto de poderem circular sem restrição entre as comunidades rivais, como se tivessem um ‘habeas corpus’. Enfim, dançar é a identidade desses garotos”, explica o cineasta.    

Emílio não esconde que, mesmo sabendo da existência do passinho há anos, ficou impactado com a força do movimento quando começou a filmar o documentário. “A primeira vez que vi o Cebolinha (um dos participantes da produção), ele estava dando autógrafo na camisa de uma criança. O vídeo ‘Passinho foda’, do Markinho, alcançou 4 milhões de visualizações em 2008 - um fenômeno na época. Eles sempre tiveram o cuidado de pensar suas carreiras e são extremamente bem preparados para argumentar contra as críticas”, diz ele, recordando-se que uma das personagens do filme era Lellêzinha. 

“Na época, ela era do Bonde das Fantásticas, da Praça Seca, e ninguém a conhecia. Cebolinha me apresentou apenas como ‘uma irmã que dança passinho’”, diz ele sobre a dançarina do Dream Team do Passinho, que se tornou atriz da Globo e apresentadora do Multishow.  

Vencedor na categoria “Novos rumos” do Festival do Rio 2012, “A batalha do passinho “ foi exibido em mais de 30 países. “É uma visão contemporânea e jovem da favela, diferente do que geralmente é mostrado lá fora”, observa. Assim que lançou o “Passinho”, o diretor já estava com outro filme na cabeça, o “Deixa na régua”: “Durante as filmagens da ‘Batalha’, eu percebi que, às sextas, nunca conseguia falar com os meninos. Descobri que era o dia que iam ao salão de barbeiro, onde passavam horas - as filas são enormes, abrem 8h e só fecham de madrugada. A identidade visual deles é muito forte: cortes detalhistas, sobrancelhas riscadas, roupas de atletas”, afirma. 

Decidiu conhecer alguns desses barbeiros disputadíssimos para registrar tanto o aspecto estético quanto e de sociabilidade. O filme foi vencedor do Festival do Rio 2016 e estreou ano passado no Canal Brasil. Agora, Emílio anda envolvido na produção de seu terceiro documentário, que considera como o encerramento de uma trilogia do corpo. “A ideia do ‘Favela é moda’ surgiu quando uma agência do Morro do Alemão me ligou pedindo indicações para um teste de modelos negros e uns meninos do passinho acabaram participando da campanha”, conta. 

O documentário será uma coprodução da Osmose Filmes com a Espiral, de Lula Buarque e Leticia Monte, e provavelmente será veiculado no Canal Curta! “Vou mostrar a luta por representação do negro no mercado da moda falando, em especial, da Jacaré Moda, do Jacarezinho, criada há 15 anos por Julio Cesar da Silva. Ele teve a ideia quando folheou revistas de moda no lixo do prédio onde era porteiro e reparou que não tinha nenhum modelo negro”, acrescenta.

A Velha Guarda do passinho

A repercussão do documentário e a importância do movimento impulsionaram Emílio Domingos a se envolver em mais projetos sobre o “passinho” - um site e uma websérie. “De passinho em passinho” (www.depassinhoempassinho.com.br) tem entrevistas e apresentação de passos dos dançarinos Baianinho, Bryan, Camarão Preto, Cebolinha, Jacson, Leleo, Nego, Rene e Markinho. “Eu os vejo como se fossem de uma Velha Guarda do samba, a nobreza do passinho. A dança já se transformou tanto que a nova geração nem conhece mais a história inicial. Hoje está mais acrobático e acelerado”, explica. Nos vídeos, os dançarinos falam de suas trajetórias além de dar uma aula com seus passos. “O baile é a base do passinho”, ressalta Leleo. “O funk é o suporte que o governo não dá para a favela”, afirma Cebolinha. “O funk me deu nome e família””, conta Baiano. 

O cineasta destaca que o site é uma fonte de divulgação e pesquisa do movimento, além de dar voz para que as próprias pessoas contem suas histórias. “Se fosse um país um pouco mais justo, eles seriam mais reconhecidos. Cada um ali é um Nureyev, que desenvolveu seu próprio estilo. E, além de tudo, é um estilo admirado no mundo todo. Vi dançarinos de break em Nova York pedindo para aprender o passinho”, conta. A ideia de Emílio é dar continuidade ao site, incluindo mais depoimentos e inserir notícias, mas precisa de recursos para isso.”Fiz o site com R$ 10 mil. Só o design, levou a metade. O resto foi para pagar o cachê dos garotos”, diz.        

Outra atuação de Emílio em relação ao passinho é a direção da websérie “Passinho da favela” (httpss://www.youtube.com/watch?v=e97t3IVEoyQ), veiculada no Youtube. “Recebi o convite do Cebolinha, que estava escrevendo um roteiro sobre a sua relação com o passinho. A história mostra os ensaios deles no Centro de Referência da Juventude - que hoje passa por uma grave crise -, que é considerado uma capital informal do passinho, uma vez que abriu as portas para os dançarinos. Foi um grande esforço de produção: os cinco episódios foram filmados em três dias, com a participação de cem dançarinos”, enumera, informando ainda que Cebolinha se empolgou e está escrevendo a segunda temporada.  



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