Luz, câmera, coragem! 

O que basicamente identifica as cineastas mãe e filha Murat é o engajamento de sua obra. Emergindo de uma semana em que o Brasil, e também o mundo, impactaram-se pelo descaramento da violência cometida no Rio de Janeiro, sob a certeza do véu da impunidade, contra a vereadora Marielle, cresce a nossos olhos o mérito das mulheres que ousam, através de seus ofícios, praticar incessantes denúncias contra o arbítrio, o preconceito, as truculências a que as minorias estão permanentemente expostas. Como fazem as cineastas Murat.

Lucia Murat é uma sobrevivente das câmaras de tortura das prisões militares em 1971. Sua obra traz esse relato. Aos 18 anos, ingressou no movimento estudantil, aos 19, no MR-8 e na luta armada, permaneceu presa e sendo torturada por três anos e meio. Seu primeiro longa, Que bom te ver viva, abordou esse tema, bem como Quase dois irmãos, que lhe valeu o prêmio de Melhor Filme Ibero-Americano e Melhor Filme do Júri popular no Festival de Mar del Plata. Uma longa viagem foi outro merecedor de prêmios, assim como A memória que me contam. Sempre relatos sobre os Anos de Chumbo.

Lucia agora retorna de Lisboa, onde foi acompanhar seu novo filme, Praça Paris, uma coprodução portuguesa, e se dedica ao seu lançamento comercial que será agora em 26 de abril, enquanto desenvolve mais dois projetos: uma série para TV sobre a violação dos direitos indígenas, a partir do Relatório Figueiredo, e um filme chamado Ana, sobre uma artista plástica que procura uma personagem desaparecida pela América Latina.

Assim como sua mãe, a jovem cineasta premiada Julia Murat envolve-se em múltiplos projetos. Como produtora, assina Las Herederas, filme paraguaio que acaba de ganhar quatro prêmios no Festival de Berlim e será lançado neste primeiro semestre, e Excelentíssimos, filme que acompanhou o dia a dia do Congresso Nacional ao longo do processo de impeachment. Como diretora, desenvolve o filme Regra 34, sobre uma mulher que tem um desejo sexual pela violência. 

Vamos conversar juntos com elas.

H.A. - Como vocês enxergam o Brasil de hoje com seu olhar de cineastas?

Lucia - Um momento extremamente difícil em que o poder público representa o atraso, seja do ponto de vista social seja das minorias. Ao mesmo tempo temos o fortalecimento do movimento das mulheres, dos negros, dos indígenas e dos LGBT. Como cineasta, penso que devo me preocupar em integrar esses movimentos no fazer cinematográfico. Julia - Passei a vida treinando o meu olhar cinematográfico, com a crença de que fazíamos política nos atos pequenos, no dia a dia, em nossas narrativas. Hoje o momento é tão crítico que, pela primeira vez na minha vida, sinto que fazer cinema já não é mais sufi ciente. 

H.A. - Quem mais influencia ou mais influenciou quem na produção de suas obras? A mãe ou a filha? De que forma? Em que momentos?

Lucia - Quando Júlia começa a fazer cinema, a partir dos 18 anos, ela e sua geração foram fundamentais pra me rejuvenescerem, me colocar em contato com o novo cinema que se produzia no mundo. Sinto que continuei fazendo cinema porque tive o prazer dessa convivência, que me alimentou.

Julia - Sempre falei que minha mãe tinha me ensinado a ser persistente e a seguir trabalhando diante de todos os nãos que eu iria ouvir ao longo da vida. Mas sua influência é muito maior. Tanto diretamente no cinema - e no fazer cinematográfico - já que nasci em um set de filmagem absorvendo estética e tecnicamente, quanto indiretamente, pois minha personalidade e crenças são resultado de ser filha de quem sou. 

H.A. - Em que o feminino enriquece ou enfraquece a obra de vocês?

Lucia - Gosto muito de ser mulher, acho que tem uma carga deliciosamente ‘subversiva’ por termos estado fora do poder por tantas centenas de anos. Meus filmes são autorais. Inevitável o feminino estar presente. Julia - Nunca tive como objetivo falar do feminino, mas no lançamento do meu último filme, Pendular, descobri quanto o feminino - e o feminismo - estão intrínsecos às narrativas que faço, pelo simples fato de buscar construir personagens mulheres com desejos e contradições.

H.A. -  Lucia, você seria cineasta se não tivesse a responsabilidade histórica de relatar experiências pessoais tão densas, importantes e trágicas da vida brasileira?

Lucia - Acho que o cinema foi fundamental na minha sobrevivência. Me permitiu refletir sobre a violência que vivi durante a ditadura. Me deu régua e compasso. Me sinto em dívida com ele. 

H.A. -  Julia, você seria cineasta, se não tivesse crescido emulada pelo entusiasmo de uma mãe cineasta, uma heroína da vida brasileira, e neta de uma de nossas “madres de la Plaza de Mayo - versão Brasil”, a combativa Antonina Murat de Vasconcellos?   

Julia - Impossível saber. Sou fruto dessa família que, além de ter me dado muitos privilégios, me deu muita força para batalhar. Desenvolvi gosto por outras coisas ao longo da vida - como física ou como acrobacia. Mas não saberia separar o cinema da minha vida, que sempre esteve presente. Nem saberia separar a presença do entusiasmo e da força da minha mãe e minha avó em minha vida. E, também do meu pai, e da Luzinete, a babá que sempre esteve presente em minha criação. Quatro pessoas de força e determinação.

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Não apenas as heroínas vivas são atacadas. Também acontece às mártires mortas. A escultura monumento à memória de Zuzu Angel em São Conrado foi depredada, seu medalhão, esculpido pela artista Mazeredo, foi partido em pedaços. A moradora do bairro, que o adotou junto ao Parques e Jardins, cuida de restaurar as peças, juntamente com o jardim. Terá sido esse vandalismo um aviso?