"Jorge Amado é um grande feminista", diz Juliana Paes, que vive "Dona Flor" nos cinemas

"Esse filme não poderia vir em melhor hora, em que estamos falando sobre empoderamento feminino"

Recriar um clássico da literatura é sempre mais complicado do que começar uma história do zero, seja uma adaptação para o teatro, a televisão ou o cinema. Isto porque a equipe precisa de uma extensa pesquisa bibliográfica para tornar aquele conteúdo o mais fiel possível. Se este livro já foi revisitado várias vezes por outros membros da comunidade artística, o desafio é ainda maior devido à qualidade das versões anteriores. Críticas sempre existirão, afinal, estes recortes mexem com a memória afetiva do público. É nesse cenário que a nova versão de "Dona Flor e seus dois maridos" se insere. O longa, dirigido por Pedro Vasconcelos - que já comandou uma montagem teatral inspirada na obra - estreia no próximo dia 23 e já é aguardado nacionalmente. 

O roteiro foi inspirado no clássico do escritor Jorge Amado, um exemplar constantemente abordado nas escolas e no dia a dia dos brasileiros. Esta, no entanto, não foi a primeira releitura do romance que, inclusive, já possui um longa-metragem, produzido em 1976. Mais de 40 anos depois de Sonia Braga dar vida à protagonista, Juliana Paes é Dona Flor. "E acho que esse filme não poderia vir em melhor hora. Em um momento em que estamos falando sobre empoderamento feminino e o papel da mulher, vem uma personagem como essa", comemorou ela, indo além: "Gosto de falar que Jorge Amado é um grande feminista porque escreveu um livro em que, no final, a mulher não faz concessões".

De fato. Ela se refere à divisão de Flor entre o metódico Teodoro, um marido perfeito mas sem-graça - que, na nova versão, é vivido por Leandro Hassum - e o desregrado Vadinho, um homem nada respeitoso mas que lhe satisfaz na cama, personagem de Marcelo Faria. "Ela termina com o equilíbrio. Razão e emoção, amor e desejo. Todo mundo quer um pouco de tudo. Essa coisa de 'bela, recatada e do lar' é uma palhaçada, isso não existe", afirmou.

O tema, aliás, deu brecha para que Juliana comentasse os relatos de abuso que tem tomado Hollywood desde o mês passado. Centenas de atrizes e outras profissionais envolvidas na indústria acusaram nomes conhecidos do cinema, como o produtor Harvey Weinstein, o cineasta James Toback e o ator Kevin Spacey de assédio sexual. "A mulherada resolveu falar e que bom que está repercutindo. E cuidado, abusadores, não achem que o tempo vai apagar os rastros", avisou a atriz.