Espírito Santo: das vestes do papa Francisco à economia criativa de Vitória Moda

Em sua sexta edição, semana de moda discute diversidade, arte e cultura como forma de inclusão

Durante a passagem do papa Francisco pelo Brasil para a Jornada Mundial da Juventude, o estado do Espírito Santo celebrou algo que entrou para a história do pólo industrial da cidade de Colatina. A empresa Cordis, da Diocese de Colatina, confeccionou as vestes do Santo Padre usadas por ele quando em visita ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida. Túnica, casula e mitra, criadas especialmente para o papa, ficarão em exposição na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo. Além das vestes para o Sumo Pontífice, a empresa foi responsável por produzir peças para 500 religiosos, entre bispos e cardeais. A simplicidade das peças seguiu a chancela que o papa Francisco nos deixou como legado de exemplo de vida.

E começo a minha matéria lembrando essa história de Colatina para fazer um paralelo com a sexta edição de Vitória Moda (promovida pela Federação das Indústrias do Espírito Santo), maior evento do estado, reunindo desfiles e negócios, realizada semana passada, justamente durante a passagem do papa Francisco pelo nosso país. O mote desta edição foi a economia criativa e o polo de Colatina tem vários exemplos. A tônica da sustentabilidade como mélange de questões relativas ao meio ambiente + social + economia permeou totalmente esta edição da semana de moda de Vitória, na qual empresários, designers, compradores, estudantes, jornalistas discutiram ações a respeito da diversidade, da arte e da cultura como forma de fazer moda.

Outro dia tive o prazer de escrever para uma exposição que será montada durante a Trend House, semana de moda de Maceió, pilotada por James Silver, sobre o trabalho da Coopa Roca, símbolo de moda + design e ponte Rio de Janeiro-Mundo. A Coopa Roca (Cooperativa de Trabalho Artesanal e de Costura da Rocinha), é uma grife carioca reconhecida internacionalmente pelo fashion world por seus looks, acessórios e objetos de design com utilização de materiais ecologicamente corretos e referência nacional no processo de inserção social das comunidades de baixa renda. Mas, eu pude conhecer in loco, em Vitória, o trabalho de um sem-número de estilistas e empresas que comungam com esta nova forma de se fazer moda. Foi gratificante. 

No Centro de Convenções de Vitória e com curadoria da designer Jacqueline Chiabay, foi montada a mostra Diálogos Diversos, com trabalhos assinados por Simone Monteiro, Hellen Dalla, Luisa Mendes, Josué Vasconcelos, Rebeca Duarte e Maria Sanz.

Além dos looks expostos, conhecemos o trabalho do grupo Conchas Brasiles, nascido de uma parceria entre a Abest e o Sebrae para o Projeto + B Identidade Brasil. Cerca de 12 mulheres criam acessórios utilizando areia, escama e conchas. Conferimos também o resultado do projeto Oficina Equilllibrium, que funciona dentro do Presídio Estadual de Vila Velha – Xuri-ES, envolvendo 25 detentos na produção de bolsas, acessórios de moda e de decoração e brindes corporativos.

Outro participante da mostra foi o grupo Frufrus de Ponto Alto, formado por lavradores da região de Ponto Alto, descendentes de alemães e pomeranos de Domingos Martins que encontraram no artesanato uma alternativa para agregar renda e melhorar sua qualidade de vida. São mais de 150 famílias envolvidas direta e indiretamente, e a matéria-prima utilizada são tiras de malha e outros resíduos, por meio de técnicas  desenvolvidas com  drapejados singulares.

Participamos ainda de um talk show cujo tema era Moda e economia criativa: perspectivas para 2014.O empresário de moda e vice-presidente da Câmara do Vestuário do Espírito Santo, José Carlos Bergamin; a consultora de moda e diretora dos desfiles do Vitória Moda, Silvia de Souza; a designer e artesã Jacqueline Chiabay, e a designer Claudia Guarçoni contaram com a mediação feita pela jornalista Betty Feliz.

Em síntese, a minha conclusão da conversa é algo que venho frisando sempre, aqui, na coluna: os holofotes da moda estão sendo plurais, graças a Deus! A cada dia a indústria da moda do nosso país tenta deixar de ser refém do alter ego colonizador do europeu e a maximização de potencial do artesanato brasileiro afasta nossa arte de uma armadilha letal, neste movimento progressivo do ambiente local para o internacional. Viva o luxo do artesanato brasileiro! Diferentemente de outros países que vendem seus produtos pela questão custo, nós vendemos os nosso pelas nossas cores, nossa criatividade, nossos traços livres, nossa leveza. Todos esses pontos representam cada vez mais nosso jeito de ser, o nosso DNA, em um mundo que nos parecia inatingível.

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