Na voz de Arthur Nogueira, um Pará que vai muito além do tecnobrega...

Parceiro assíduo de poetas como Antonio Cícero e Omar Salomão, músico bateu um papo com a coluna

Nós bem sabemos que o Brasil não é só samba, suor e cerveja, não é mesmo? E entramos em pânico quando avistamos a possibilidade deste clichê se proliferar pelos quatro cantos do mundo. Medo legítimo, afinal de contas, nosso país é um mosaico para lá de complexo, repleto de ritmos, cores e traços. Tantos deles que até quando olhamos para dentro é preciso ter cuidado com as armadilhas da obviedade. Como no caso, por exemplo, da música paraense.

Com a forte onda recente do tecnobrega tomando conta do país, com direito a Gaby Amarantos em novela da Globo, criou-se uma associação legítima e automática do ritmo com o estado nortista. No entanto, assim como outros pontos do país, o Pará produz muito mais que uma simples vertente. Produz nomes como Arthur Nogueira, um jovem de 25 anos que saiu de Belém para construir sua carreira no Sudeste-maravilha, passando pelo Rio de Janeiro e, hoje, morando em São Paulo. "É fundamental o interesse em circular pelo maior número de lugares e trocar com o maior número de pessoas possível", revela o 'nômade' músico, dono de uma voz delicada encaixada em uma MPB radiofônica e envolvente.

Lançando o compacto 'entremargens' (com shows hoje,19, e amanhã, no Oi Futuro, em Ipanema), Arthur apresenta em seu novo trabalho alguns dos resultados das parcerias que colheu ao chegar no eixo RJ/SP. Como sua união ao poeta carioca Antônio Cícero – irmão e responsável por grande parte do repertório de Marina Lima. Arthur se apropria do Rio de Janeiro descrito por Cícero ainda nos anos 70 para cantar a cidade onde ele, Arthur, viveu por um ano e desenvolveu parte de seu novo repertório. 

No currículo, ainda parcerias com outros importantes poetas: Eucanaã Ferraz, Vital Lima e Dand M., e com os jovens Ramon Mello e Omar Salomão. "Penso que estas e outras trocas com parceiros da nova geração, como a paulistana Marina Wisnik, o mineiro Cesar Lacerda e o carioca Brunno Monteiro são essenciais também para ir me transformando como artista, numa cooperação intensa em torno da música e da construção da cena atual", acredita o paraense.

Sobre uma possível identificação radical do público com o laço Pará-tecnobrega, Arthur aponta certo receio, mas sem qualquer tipo de censura. "O Pará é um lugar onde se produz muita coisa interessante, inclusive tecnobrega, que é um fenômeno que me interessa bem mais pelo aspecto social do que musical. A visibilidade que determinados segmentos da música do Estado alcançaram recentemente é positiva, porém, se não tomarmos cuidado, traça uma caricatura que não condiz com a diversidade da produção contemporânea do Pará", alerta.

Diversidade, claro, que engloba seu trabalho. "Ao mesmo tempo que tenho interesse nos clássicos, reconheço uma preocupação muito forte em dialogar com tudo o que considero interessante na produção brasileira contemporânea", confessa Arthur, ávido por parcerias rumo à construção de uma música que transpõe as barreiras do Pará. E dos clichês.

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