Fenim SP: entre passeatas e protestos, a moda reage e briga por mercado

Consultor de moda Alexandre Schnabl confere o poder do mercado comprador brasileiro de moda

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Em meio aos protestos que tem movimentado o Brasil, foi realizada a primeira edição da Fenim São Paulo, braço regional do tradicional evento de moda de Gramado. A feira, que começou em 1981 como Feninver, mudou de nome nos anos 90 e, desde o mês passado, ganhou o Brasil com os lançamentos do Verão 2014 acontecendo em Fortaleza e, agora, na capital paulista. Isto, na verdade, faz parte da estratégia de Julio Viana, diretor comercial da empresa que promove a Fenim – Expovest – de aproximar o mercado comprador do mercado produtor, descentralizando o evento por mais de uma praça e minimizando a distância entre eles. Segundo ele, “essa será a nova tendência de mercado para os próximos anos, crucial para quem quer vender moda comercial em escala de gente grande”. Sim, para ele o mercado de moda nacional é como um tabuleiro de WAR e, desde que passou a apostar neste formato regional das feiras, transpondo barreiras geográficas, seu objetivo é conquistar 24 territórios como no famoso joguinho. Vladivostok, Bornéu e Sumatra, no caso, são, respectivamente, Gramado, Fortaleza e São Paulo.

Durante os três dias de feira, houve quem se preocupasse com as passeatas que tomaram conta da Avenida Paulista e da Ponte Estaiada, achando que o clima de protesto e o fluxo de trânsito caótico pudessem prejudicar a freqüência, mas nada disso se concretizou. Ao contrário, os números superaram as expectativas, com boas vendas, cerca de 25 mil visitantes e mais de 11 mil CNPJs circulando pelo pavilhão do Expo Center Norte, palco do evento. Cerca de 1.300 marcas mostraram seus lançamentos de primavera-verão, inclusive aquelas que levaram suas coleções para Fortaleza, agora completadas por maior gama de produtos. E, embora a previsão inicial fosse atingir as multimarcas e magazines da Região Sudeste, lojistas de todo o Brasil compareceram e até alguns de outros países, como Angola, China, Espanha, Estados Unidos, Chile e Peru. Um sucesso. Tanto que a Expovest já fechou 38 contratos com expositores para a edição 2014, que será realizada de 15 a 17 de junho.

Julio Viana afirma que “em uma feira é possível vender em três dias cerca de 40 de produção industrial”. E ainda polemiza: “Não estou preocupado com firulas de semanas de moda. Nada contra muita badalação, mas meu foco é o lojista. Toda a cadeia precisa ser contemplada e os desfiles dos criadores conceituais são importantes para manter o gás do mercado, estimulando a criatividade, mas sei de gente que desfila sem ter recursos para produzir sua coleção. Meu negócio aqui é vender para a grande parcela da população com produtos viáveis a preços competitivos”.  Segundo ele, o charme para vender mais significa oferecer qualidade e bom preço, de preferência com certo algo mais. E completa, lançando poeira no ventilador: “Tenho expositores que fabricam camisas pólo de qualidade superior ao jacaré. Mas sei que o cliente procura conciliar qualidade e preço com imagem de marca consolidada”.

 Mas, entre valorizar as vendas ou se preocupar com o rumo das fashion weeks, foi possível confirmar durante o evento a tal amplitude do mercado mencionada por Julio, com algumas das principais tendências que pipocaram nas passarelas expostas nas vitrines da feira: grafismos em preto e branco, estampas espelhadas, interpretações naif de paraísos tropicais, motivos marinhos no espírito seapunk, animal prints, rostos de bichos, cores flúor, coral e amarelo-limão, looks em azul com verde e brancos à exaustão. De fato, as máximas polêmicas de Julio Viana parecem fazer sentido, principalmente quando suas considerações enveredam pelo longo percurso da cadeia produtiva. Antoine El Etter, sócio-diretor da Nico Boco, tradicional fabricante de surfwear do Brás paulistano, concorda com ele: “Já exponho em Gramado há anos, fui para Fortaleza e agora estou aqui, em São Paulo, abrindo portas. Cada praça reage com uma atitude diferente e é preciso diversificar em ações comerciais”. Com quatro marcas expostas, Antoine aposta na tecnologia aliada ao estilo, apresentando desde T-shirts em colorido ácido até camisas em xadrez grunge com fones de ouvido laváveis acoplados. E em bermudas de surfe com cadarços siliconizados para evitar que os garotões sejam pegos – literalmente! – de calça arriada no caso de um caixote.

Nelson Simonato Inácio, gerente administrativo da Malharia Nacional, fabricante de Jacutinga, é outro que faz coro com os demais expositores, adaptando sua realidade comercial para a diversidade de cada mercado e participando das várias feiras. Se em Fortaleza ele optou por um estande mais fechado, agora, em São Paulo, preferiu deixá-lo mais aberto para facilitar o acesso do comprador local. E investiu pesado nas tendências que vão tomar de assalto o verão: coloridos fortes, bordados artesanais e estampas de bicho. De fato, nenhuma inspiração pode ficar de fora e a multiplicidade de estilos faz parte da abrangência do evento. A Breda trouxe sua camisaria social adulta e infantil nas cores próxima da estação, com destaque para laranjas, goiabas, verde-água e lilases. Já a Ton Age, grife de roupa de festa sediada em Porto Alegre, preferiu abordar o esfuziante clima dos anos 20, com uma coleção inspirada no Grande Gatsby, clássico da literatura mundial, cuja mais recente versão cinematográfica está atualmente em cartaz.

Naturalmente, araras com vestidos repletos de brilhos e bordados art déco deram as caras. Laís Tarasconi, proprietária da marca, reforça o time daqueles que apostam nessa multiplicidade de ações para driblar a crise econômica: “Exponho aqui, faço show room, participo do Minas Trend, do Casa Moda do Hotel Unique e até no Salão Bossa Nova carioca. Tenho de ir de encontro ao comprador”.  Bom, pelo andar da carruagem, em breve ela poderá participar também de mais uma feira de moda, pois a Expovest já pretende criar, em breve, um evento semelhante no Rio de Janeiro. É, jogo de WAR perde para esta turma, que não brinca em serviço. Agora só resta esperar.

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