O Canto da Sereia: roteiro de primeira peca ao optar por um final previsível 

Microssérie conquista pelo enredo bem construído, mas erra na falta de ousadia quanto a seu desfecho

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Foram apenas quatro capítulos, mas 'O canto da sereia' parece ter representado muito mais para a teledramaturgia recente da TV brasileira. Ou então estamos apenas não muito acostumados com tramas que não subestimam a capacidade intelectual do telespectador. E assim, sem medo de inserir uma linguagem refinada em uma curta adaptação do livro homônimo de Nelson Motta, os roteiristas George de Moura, Sérgio Goldenberg e Patrícia Andrade construíram, de forma não-linear, a história de Sereia, interpretada com delicadeza por uma Isis Valverde que assim sobe mais um degrau em sua trajetória. Com uma estreia elegante, que deu robustez à frágil narrativa de Nelson, 'O canto da sereia', em quatro noites, nos mostrou uma Salvador sufocante, integrada ao enredo de forma suspeita, sombria, marcante.

Mostrou também a habilidade do diretor José Luiz Villamarim (aliado a uma fotografia deslumbrante), responsável por cenas inesquecíveis, como a do assassinato de Sereia, logo no primeiro capítulo, e, principalmente, o encontro entre a cantora de axé e Só Love, vivido por João Miguel, na noite em que ela revela a seu fiel escudeiro que tem poucos dias de vida, por conta de um tumor na cabeça. 'Nosso estranho amor', de Caetano Veloso, cantada por Isis com uma voz embargada e emoldurada pela delicadeza cênica de João, certamente é um momento que já entrou para a história.

Aliás, foi João Miguel quem tomou as rédeas de 'O canto da sereia' na reta final, com o previsível desfecho (no livro, Sereia contrata um matador para executá-la em cima do trio, enquanto na microssérie Só Love é convocado pela diva para a missão) sendo amenizado com mais uma cena antológica em que, após cometer seu crime, Só Love joga no mar suas vestes de bate-bola. Ao fundo, os dizeres: 'O amor só é verdadeiro quando se é desprendido de nossa própria vida'. Arrepios mil.

Novamente, quanto ao desfecho, talvez a ousadia coubesse também neste ponto, deixando a 'culpa' do crime em outro personagem. Por que não Mãe Marina (Fabíula Nascimento), visivelmente transtornada com a descoberta de que Sereia havia se envolvido com seu marido, poderia ter executado a cantora? Mas, apesar do final sem grandes arroubos de adrenalina, 'O canto da sereia' já merece respeito por trazer uma brisa de esmero à sofrida teledramaturgia brasileira recente.

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