Amor eterno amor: Pilar del Río, como viver junto a José Saramago? 

Luciana Maline comenta filme e livro de Miguel Gonçalves Mendes, que incensou o amor de Saramago

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Logo que José Saramago morreu, naquele junho de 2010, lamentos reunidos à gratidão lotavam as redes sociais. Órfãos-leitores fiéis que carregavam seus livros fichados na mala de afagos dividiam espaço com fãs instantâneos que, em evidente falta de intimidade, dirigiam-se ao composto Sara Mago. Um registro, porém, vale um respeito especial: no mesmo ano, um documentário sensível surgia aos olhos ainda marejados, sem limites bem determinados entre o relato e a estrutura ficcional. O nome? “José e Pilar”, do português de ideias encantadas Miguel Gonçalves Mendes, e o mito que trouxe o único prêmio Nobel à Língua Portuguesa abriu a caverna para mostrar um sentido de intimidade nada vulgar: a hora de fazer a barba, as manhãs de bicicleta ergométrica ou um simples jogo de paciência em frente ao computador. A semelhança a você. 

Miguel voltou à terras cariocas esta semana com o lançamento do livro José e Pilar: conversas inéditas e trouxe com ele debates, memórias e... a clássica polêmica em torno de Pilar, intensa como toda boa protagonista recordista de bilheteria e, agora, livraria. Mas quem mesmo seria Pilar?

Pilar del Río é uma espanhola, a mais velha de 15 irmãos. Jornalista sem cerimônias no discurso de seus ideais. Tradutora, leitora. A miúda, nas horas vagas, e grande gestora das horas de rush do escritor. Ou melhor, a musa de um poeta de prosa. Tanto quis conhecer José que assim o fez no 14 de Junho de seus 36 aninhos. Ele, no auge dos 63, outros dois casamentos no currículo e sem tempo a perder. Percorreram mais 24 anos juntos, preenchendo dedicatórias de primeira página e vivendo sob a intensidade digna de carinhoso tapinha no bumbum já nos últimos anos de união. Um grande amor tardio, sem jogar a tolha até o último suspiro, um encontro de ousadias, quem não gostaria?

Saramago não acreditava em Deus, mas fazia do ato de viver a sua maior divindade. Nunca deu ao tardar um conceito excessivo ao ponto de excludente para achar a essência de uma união. Viveu a fraternidade de forma rigorosa, muitas vezes esquecida por beatas ou profundos conhecedores dos dogmas da fé.  Aliás, convenhamos, precisaria ser apegado à religião quem tem Deus nas atitudes? 

Santificados sejam mesmo aqueles que deixam um legado a ser ensinado. E foi com a ânsia de bem preencher o tempo estampado nos movimentos mais vagarosos que José mostrou o poder da eternidade aos que têm pressa. Aos que não sabem calibrar a homeopatia da construção exatamente por esperarem passivamente a chegada de um ideal impossível.

José não desistiu, Pilar sabe bem onde quer chegar. Fazer, construir, amadurecer. Superar a cegueira das relações de redes sociais, da criação de personalidades irreais, dos produtos que devem ser consumidos para satisfação imediata, dos padrões de beleza inalcançáveis, do profissional 24-horas-por-dia. Um ideal de paraíso que não condiz ao viver. Como resistir sem ceder? José e Pilar.

Contínuos até que a morte tenha servido de homenagem para revelar ao mundo a história mais bonita de um contador.

*** Luciana Maline é do ramo das Letras por formação, fotógrafa por qualificação e amiga da coluna (por coração). 

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