Pela democracia da moda: o Brasil é mais do que a ditadura do eixo Rio-São Paulo

Um papo reto com James Silver, o curador da Trend House 2012, semana de moda de Alagoas

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O desafio de reger a sinfonia de uma semana de moda e gastronomia em Alagoas, falando para um público heterogêneo (que inclui editoras de moda do Brasil de Norte a Sul + consumidoras finais + curiosos de um tema que cada vez mais faz a cabeça do nosso povo), cabe a James Silver, curador da TrendHouse' 2012. Em um bate-papo com ele, eu pude sentir que, cada vez mais, os holofotes da moda estão sendo plurais (no real sentido da palavra). Sem dialogar diretamente apenas para um determinado nicho, James quer corroborar, através do seu evento, o que todos nós estamos sentindo na pele, na rua, através da TV: a moda hoje não é mais restrita a uma determinada classe social. Ecoa para to-dos. A verve fashion pulsa na tão dencantada, atualmente, nova classe média. Isso é tácito e vemos o reflexo até mesmo em novelas da TV Globo, como Cheias de charme e Avenida Brasil. E Maceió quer mostrar ao país que sabe fazer moda. E para todos. "Nomes como o de Vera Arruda (1966-2004) a homenageada da TrendHouse esse ano, abriram portas para uma moda regional, mas não caricata. Depois dela, só para citar alagoanas, Martha Medeiros, Ana Maia e Rosa Piatti, além de Jeanine Fontan, da Caleidoscópio, provaram que o regional pode ser a mais perfeita ponte com o universal", afirma James. Mas, ele também avisa: "Para não entrar no 'piriguetismo', a mulher deve apostar em tecidos mais leves, sobrepondo-se à tentação do pouco pano nesse eterno (e escaldante!) verão daqui". Delicie-se com o nosso pingue-pongue:

HT - Quais são as peculiaridades de uma semana de moda no Nordeste?

JS- Servimos de vitrine para que os nossos criadores ganhem espaço nacional. Por isso temos três focos: o hand made com toque contemporâneo, aproveitando o farto artesanato local agregado à design; o beachwear, também valorizado por detalhes artesanais e os acessórios.

HT - Um evento em Maceió tem características que poderiam diferenciá-lo, se ele fosse feito em qualquer outro lugar do país?

JS - Claro, o savoir vivre do povo, as belezas naturais e a profusão do hand made (renascença, bilro, singelê, filé, boa noite, rendendê, palha de taboa... só para citar alguns). Indefectível! Sem falar de nossa culinária, já que em paralelo apresentamos o Trend Food Festival, com 12 chefs estrelados seduzindo a todos com suas delícias!

HT - Qual é o papel da moda nordestina no cenário nacional?

JS - Nomes como o de Vera Arruda, a homenageada da Trend House esse ano, abriram portas para uma moda regional, mas não caricata. Depois dela, só para citar alagoanas, Martha Medeiros, Ana Maia e Rosa Piatti, além de Jeanine Fontan, da Caleidoscópio, provaram que o regional pode ser a mais perfeita ponte com o universal.

HT - Com o forte calor do Nordeste, como a mulher deve se vestir para não errar a mão?

JS - Para não entrar no 'piriguetismo', a mulher deve apostar em tecidos mais leves, sobrepondo-se à tentação do pouco pano nesse eterno (e escaldante!) verão daqui.

HT - Quais seriam as cinco peças que você destacaria como fundamentais para a alagoana ter no guarda-roupa?

JS - Jeans, caftan, camisa branca, maiô e óculos solar.

HT - O Brasil é um país de muito rico criativa e culturalmente, por que não conseguimos nos desamarrar das tendências propostas nas semanas de moda internacionais? Existe espaço no mercado para a moda que não segue tendências?

JS - Será que precisamos nos libertar?!? Às vezes é gostoso 'seguir a boiada'... Agora, e Vera Arruda foi a prova disso, dá para criar uma moda só nossa!

HT - Você acha que a democratização da informação está pasteurizando a moda e escondendo o estilo pessoal?

JS - Claaaaaro! E essas meninas em série, todas usando o mesmo maxi colar, todas com blog, todas com o mesmo hi-lo Zara+Chanel. Tô fora!

HT - O que você terá orgulho de dizer que imprimiu no mundo da moda?

JS - Espero um dia apenas ter feito muitos amigos nesse meio. Verdadeiros! E ensinado a eles que ser arrogante está fora de moda. No mais é trabalho, trabalho, trabalho para a moda brasileira crescer em conjunto.

HT - Como analisa o mercado de moda fora do eixo Rio-São Paulo?

JS - Profissionalíssimo!

HT - O homem alagoano hoje se interesse por moda mais que nos anos passados?

JS - E como! O machismo deu lugar aqui ao metromacho! Eu, então, sou fashionista até o último fio de cabelo.

HT - A brasileira sabe investir no mercado de luxo ou ela é puro exagero quando tem dinheiro? 

JS - Meio lá, meio cá!

HT - O vestuário se libertou da inquisição social? Por que no Brasil as mulheres se vestem sempre da mesma forma?

JS - É cultural, Heloisa!

HT - Dá para se viver de moda no nosso país?

JS - Eu vivo (não tão bem quanto a minha mulher gostaria!) como jornalista de lifestyle e consultor/curador de eventos do setor.

HT - Como organizar uma semana de moda que seja atraente para o público alvo do Trend House?

JS - A gente mescla o espetáculo das grandes marcas comerciais - reeditando desfiles apresentados originalmente na SPFW, como o da Colcci - com a valorização dos nossos criadores. Como plus ainda somos a plataforma de lançamento de marcas nacionais - que já elegeram nosso palco para lançar suas coleções para o Brasil: caso da Carmen Steffens, Farm e da italiana Brasaimara.

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