Pop em larga escala, abertura dos Jogos de Londres cumpre papel, mas não encanta

Festa cativa pela trilha sonora, mas cai na armadilha da burocracia visual, sem empolgar

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Talvez nunca tenha sido realizada uma cerimônia de abertura tão interessante, do ponto de vista musical, como a que pôde ser vista ontem (27), em Londres. Do punk rock dos Sex Pistols ao pop de Adele, passando por clássicos dos Beatles, Rolling Stones, David Bowie, Prodigy e Blur, os britânicos apresentaram ao mundo uma performance com os olhos voltados para o que, até hoje, proporcionaram de mais incrível aos nossos ouvidos. No entanto, esqueceram dos nossos olhos.

Com uma leve pincelada na História do Reino Unido, dos campos transbordando bucolismo à construção da sociedade industrial, a festa reservou aos seus primeiros 60 minutos a brisa de lições de escola tradicionais neste tipo de evento (e da qual não abrimos mão, cá entre nós). Posteriormente, uma homenagem à literatura infantil bretã, mesclando Peter Pan com Harry Potter em uma homenagem de gosto duvidoso ao sistema de saúde do país. Uma burocracia incômoda, tanto em coreografias como em elementos alegóricos. Na mente de cá, do telespectador brasileiro, a despeito de qualquer bairrismo, o leve pensar: viva a Sapucaí!

E dali para a frente, o que enxergamos foi uma sequência de hits de todas as décadas emendados um ao outro de forma frenética, com balés cheios de referências de períodos e movimentos múltiplos, em um mosaico extremamente confuso no centro do estádio olímpico. 

Uma ressalva? A 'chegada' de Elizabeth II ao local da festa, 'pulando' de pára-quedas juntamente a Daniel Craig, no papel de James Bond, depois de fazer questão de buscá-la, pessoalmente, em seu palácio, em vídeo exibido no telão. E também a participação de Rowan Atkinson, ou melhor, Mr. Bean, interagindo de forma, digamos, atrapalhada, com a Orquestra Sinfônica de Londres, ao som de 'Carruagens de Fogo'.

Diferentemente de Pequim, em que o desbunde visual se aliou a uma linha do tempo finalizada com o presente modernoso da China, Londres nos brindou com um espetáculo extremamente pop em essência, principalmente pela trilha sonora, mas sem um fio condutor consistente, sem fascinar, sem ferver a plateia, visivelmente empolgada em apenas três instantes: a chegada de sua rainha, a entrada da delegação nativa e a apresentação final de Paul McCartney, ao som de 'Hey Jude!', coroando a abertura dos jogos. Claro, com um dos maiores hits do reino, como não podia deixar de ser, após uma celebração repleta de melodia, belíssima aos ouvidos, mas decepcionante às retinas.

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