Crônica: colunista comenta a febre de celebridades nas passarelas da moda

Uma pensata sobre a projeção na mídia de um desfile que conta com a presença de atores

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Um amigo professor de jornalismo de moda, no Rio, me procurou e perguntou se podia fazer uma entrevista sobre a febre de celebridades nas passarelas das semanas de moda. Eu topei, claro. Mas achei bacana também dividir com vocês as minhas impressões sobre o assunto. Sou de um tempo, no Rio, no qual o famoso comprava com o seu próprio dinheiro o que vestia. Em festas, lançamentos e estreias era bom encontrar artistas da TV, representantes da sociedade e músicos com  identidade visual e sem a obrigatoriedade de responder sobre qual a marca do vestido, do sapato, da bolsa e até do perfume usava. Não víamos a preparação prévia desse artista ser alardeada com os holofotes das redes sociais, como acompanhamos hoje.

O que valia? Ah, como era bom... o papo com muita intelectualidade, com muito a dizer. A troca de ideias, sempre. Se o vizoo estava incrível, é claro que queríamos saber quem assinava a roupa. E, assim, tudo fluia com mais naturalidade. Artista não cobrava cachê para dar pinta em festa. Artista não cobrava para vestir uma grife dos pés à cabeça. Ela e ele tinham prazer, muitas vezes, de usar o look de uma estilista amiga e a gente via a verdadeira amizade em "dar uma força à estilista que desenvolvia um trabalho bonito". Tudo mudou e quem sou eu para condenar?

A festa do Oscar teve um reflexo por aqui. Com mil e um estilistas procurando mil e um produtores para tentar fazer do tapete vermelho daquela atriz a sua grande consagração como estilista. No final da década de 80, quando muitas modelos começaram a ser trocadas por celebridades nas capas das revistas, a gente começou a sentir a ânsia das marcas em também querer vestir artistas. Para ir a uma festa de lançamento de coleção, o ator (atriz) ganhava alguns looks de presente. Depois, além das roupas, veio o cachê para aparecer por até 15 minutos e posar para fotos. Vende? Vende!! Então... são as estratégias, o business, o vale tudo para sobreviver na selva do fashion world. A equação é a seguinte: famoso = poder junto ao público consumidor + vendas.

Essa "personalidade" pode influir na crítica da coleção, desviando o foco da roupa? Um bom, um excelente estilista sempre será um bom, um excelente estilista. Ele tem de se garantir. O que adianta para os editores de moda que estão sentados nas primeiras filas dos desfiles ver a atriz X, Y, Z vestindo uma roupa? Queremos ver o inusitado, a criação, o tecido, a verdadeira beleza da roupa. Mas, como existe o mundo das celebridades, muitos estilistas apostam em levá-las para as passarelas ou primeiras filas com as roupas recém saídas das linhas de produção. Os flashes pipocam... é claro. E o estilista tenta agradar a gregos e troianos: às editoras de moda e o público consumidor, ávido por levar às ruas a moda usada na TV e na vida real por seus artistas favoritos. Ele quer usar exatamente o que viu no seu ídolo. Quer ser um espelho daquela pessoa. Se a celebridade estiver toda errada na construção do look? Isso já é um outro assunto...

Cubro há anos os backstages e as passarelas das semanas de moda. Até a década de 90, as modelos reinavam na passarela. Foi a era das supermodelos: Cindy Crawford, Naomi Campbell, Elle Macpherson, Linda Evangelista, Claudia Schiffer, Tyra Banks, Christy Turlington, Valeria Mazza e Eva Herzigova. Artistas e representantes da sociedade estavam lá, na fila A, para realmente ver o desfile, encomendar suas peças preferidas (e pagar). O burburinho no backstage era bem menor, no Brasil, porque ainda não tínhamos mil e um sites e revistas de celebridades.

Havia muita amizade, isso sim. Carmen Mayrink Veiga conferindo atentamente o que compraria em seguida. Atrizes e atores correndo ao backstage para encomendar as peças e confidenciando ao amigo estilista: "Amei!! Quero agora!". Eles tinham todo o tempo do mundo para falar com a imprensa e com sorriso no rosto, sempre. Hoje, até celebridade internacional é convocada apenas para sentar na fila A de um desfile. Chega ao evento seguida por seguranças parrudos e grosseiros. Não dá entrevista, fica o tempo do desfile, sai correndo por lugares previamente combinados com a segurança do evento e, depois, cumpre o contrato de ficar algumas horas na festa da grife. E quer saber? É notícia e todos nós publicamos.

E o que falar sobre atores e músicos fazendo uma interação com a moda? Vale tudo e essa simbiose mostra arte. Se o ator ou o músico sabe desfilar, perfeito. Mas, se utiliza a passarela para apenas dar tchauzinho para a plateia e não leva aquela contratação como um job, é melhor ficar no universo dele. Moda é uma indústria que gera emprego, dinheiro e projeção internacional para um país. É assunto sério. 

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