'O abismo prateado' é indicado a melhor longa de ficção na Premiére Brasil

Desempenho da atriz Alessandra Negrini tem destaque em longa de Karim Ainouz

 

O Abismo Prateado é uma grande experiência para os espectadores. Uma experiência que funciona. O novo filme do premiado diretor Karim Ainouz (Madame Satã, 2002) nos leva a acompanhar Violeta (Alessandra Negrini), que, após receber uma mensagem de celular, inicia uma saga pelas ruas do Rio de Janeiro.

O filme é inspirado na canção Olhos nos olhos, de Chico Buarque. Segundo o próprio compositor, a música é como uma punhalada no coração de quem fez sofrer. Na história de Violeta, acompanhamos justamente o processo de mudança de atitude, de desapego, que se segue a um grande sofrimento. Essa mudança se deve à nova relação como o mundo que a personagem estabelece a partir do processo e da série de acasos que se passam após ela receber a fatídica mensagem.

Esse dia que se passa na tela, reduzido a menos de duas horas, parece durar mais que uma semana. O tempo, manipulado pelo diretor, se baseia nas experiências e emoções de sua protagonista, e não em sua decorrência natural. Assim como a magnífica orquestra de sons urbanos e naturais criada. Com isso, é a caótica mente de Violeta que emerge na tela a partir da confluência de ruído e imagem.

A contemplação, em O Abismo Prateado, é essencial para a experiência, e sua mixagem com os barulhos e ruídos cria o universo do filme. Um universo perfeitamente “copacabanesco”, um espaço em que todos os tipos de pessoas são obrigados a conviver, sufocados pelos prédios que escondem o mar, e onde ninguém parece ter o seu lugar.

O não-lugar de Violeta, após a crise, a leva a buscar um retorno a uma situação que já não pode mais existir. É o mundo exterior, tão hostil (o ruído que entra no táxi ao se abaixar a janela, o acidente de bicicleta.) e ao mesmo tempo sedutor (do pintor de parede e sua filha, que viajam pelo Brasil em uma van) que engole Violeta e a carrega em sua jornada de desapego. É necessário, tal como na música de Chico, mergulhar no sofrimento extremo e no abandono, para que se supere uma etapa da vida.

O Abismo Prateado, que já havia passado pelo Festival de Cannes, chega às telas do Festival do Rio como um dos fortes candidatos a melhor longa de ficção da Premiére Brasil. E Alessandra Negrini seria merecedora de uma possível premiação por seu desempenho primoroso.

Cotação: *** (Ótimo)

Première Brasil em competição - longa documentário - (LEI) - 14 anos

SAB (15/10) 19:00 Roxy 2 [RX035]