Özil acusa presidente de federação de racismo após anunciar saída da seleção da Alemanha

A decisão do meia da seleção da Alemanha, Mesut Özil, de deixar a equipe alegando ser vítima de racismo teve forte repercussão dentro e fora do país, onde as questões migratórias são pano de fundo para tensões políticas. O jogador alemão, de origem turca, foi alvo de pressão depois de tirar uma foto com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, em maio. Em carta à Federação Alemã de Futebol, publicada no Twitter, Özil acusa o presidente da entidade, Reinhard Grindel, de usar o racismo como propaganda política. 

Grindel, que construiu uma carreira pública antes de assumir o comando da federação, em 2016, é filiado ao partido conservador da chanceler Angela Merkel, o União Democrática Cristã. Durante passagem pelo legislativo, foi opositor da integração de imigrantes muçulmanos à sociedade alemã. Segundo Özil, o presidente da entidade aproveitou a polêmica da foto com Erdogan para manifestar opiniões racistas. 

 De acordo com o meia alemão, sua relação com Grindel começou a se deteriorar dias depois da foto, tirada em Londres, ser publicada. “Quando tentei explicar a ele minhas origens e, portanto, o contexto por trás da foto, ele se mostrou muito mais preocupado em expor suas visões políticas e desmerecer minha opinião”, lembra Özil. Ainda segundo o jogador, o dirigente da entidade quis tirá-lo do time às vésperas da Copa do Mundo, mas foi demovido pelo técnico da seleção, Joachim Löw, e por seu diretor-esportivo, Oliver Bierhoff. 

O atleta também acusa Reinhard Grindel e seus apoiadores na entidade de usá-lo como “bode expiatório” após a eliminação na primeira fase do Mundial da Rússia, depois de ser campeã em 2014. “Tudo que conquistei desde minha ascensão internacional em 2009 foi esquecido”, critica Özil, titular em três Copas e autor de 23 gols em 92 partidas. A federação alemã rejeitou as acusações de racismo e manteve a posição de que o meia deveria se justificar pela foto com Erdogan, mas elogiou o desempenho de Özil na seleção. 

Na Alemanha, as reações foram mistas. A chanceler do país, Angela Merkel, pediu respeito à decisão do atleta, a quem disse ter “grande apreço”. Já para Alice Weidel, uma das líderes do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha, o caso é “um típico exemplo do fracasso da integração das pessoas que vêm do mundo turco-islâmico”. 

Na Turquia, a decisão de Özil foi comemorada pelos ministros da Justiça e dos Esportes. Erdogan, no poder desde 2003, é visto com reservas no Ocidente. Ele e Özil se conheceram há oito anos em uma partida entre Alemanha e Turquia em Berlim, durante as eliminatórias da Eurocopa 2012, por meio de Merkel, que cumprimentou os jogadores alemães no vestiário. A relação entre os dois países se deteriorou depois do fracassado golpe contra Erdogan em 2016, que resultou em uma guinada autoritária. No ano passado, o governo alemão vetou a realização de um comício do presidente com a comunidade turca na Alemanha. 

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TRECHOS DA CARTA

“Aos olhos de Reinhard Grindel e de seus apoiadores, eu sou alemão quando nós vencemos, mas sou um imigrante turco quando perdemos”. 

“Apesar de pagar impostos na Alemanha, fazer doações às escolas alemãs e ganhar a Copa do Mundo de 2014, eu ainda não sou aceito nessa sociedade. Sou tratado como diferente”. 

“Existe algum critério para ser totalmente alemão que eu porventura não preencha? Meus amigos Lukas Podolski e Miroslav Klose nunca são referidos como polaco germânicos, então por que sou chamado de turco germânico? É porque sou muçulmano?”. 

“Criticar e abusar da minha ancestralidade familiar é uma linha lamentável a ser cruzada. O uso da discriminação como ferramenta para propaganda política deveria resultar na renúncia imediata dos responsáveis por esse desrespeito”. 

“Essas pessoas usaram minha foto com o presidente Erdogan como uma oportunidade para expressar suas tendências racistas antes escondidas”. 

“O racismo nunca, nunca deve ser aceito”. 

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*Com supervisão de Denis Kuck