Salah: o faraó do futebol

Craque egípcio encanta a Europa com seus gols e é o trunfo do Liverpool para chegar hoje à final

Além de gols, Mohamed Salah está acumulando prêmios na reta final da temporada europeia. Depois de a Associação dos Jogadores Profissionais da Inglaterra elegê-lo como melhor jogador da Premiere League, o egípcio também conquistou ontem o prêmio de Jogador do Ano da Associação dos Cronistas de Futebol. Caso confirme hoje contra a Roma, às 15h45m, a vaga na final da Liga dos Campeões – seria a primeira do Liverpool desde 2005 - será postulante real à Bola de Ouro e ao prêmio de melhor do mundo da Fifa, polarizados entre Cristiano Ronaldo e Messi nos últimos dez anos. O Liverpool vai à capital italiana com a vantagem dos 5 a 2 que construiu em casa, com dois gols e duas assistências de seu camisa 11. 

Salah já é o africano que mais marcou gols (10) em uma edição da maior competição europeia. Jogar profissionalmente ainda era um sonho de criança quando ele assistia à Liga dos Campeões pela televisão e tentava imitar os lances dos ídolos Ronaldo Fenômeno, Zidane e Totti. E, aos 25 anos, ele já atingiu um número de gols que nenhuma de suas três inspirações conseguiu em uma única Liga. A duas rodadas do fim do Campeonato Inglês, balançou as redes 31 vezes e igualou o recorde dividido por Alan Shearer, Cristiano Ronaldo e Luis Suárez. A marca é referente ao período em que a Premier League é disputada por 20 clubes. Terá ainda 180 minutos para se isolar nessa liderança histórica. 

Mais do que bolas na rede e grandes atuações, Salah carrega uma enorme representatividade para um povo, uma cultura e uma religião. Tornou-se um exemplo de sucesso para milhões de jovens que compartilham sua origem, seu credo e seu sonho. Nunca um jogador de um país árabe atraiu tanto os holofotes mundiais do futebol. Cada partida protagonizada por Salah ajuda a combater um preconceito contra muçulmanos que cresce cada vez mais. A torcida de seu clube chega a cantar: “Se ele marcar mais uns gols, serei muçulmano também. Ele está sentado na mesquita, é lá que eu quero estar”. 

No topo do Velho Continente, Salah não esquece de suas origens. Faz, regularmente, contribuições financeiras generosas para dar suporte a hospitais, escolas e centros religiosos de Nagrig, sua cidade natal. A escola em que estudou, inclusive, já carrega seu nome, e outras instituições de ensino deverão passar pelo mesmo processo. Dentro de campo, foi a principal referência da equipe que levou o Egito à Copa do Mundo depois de 28 anos . Na mesma Itália em que jogará hoje, em 1990, o país foi lanterna do grupo que tinha Inglaterra, Irlanda e Holanda.

O primeiro grande passo para se tornar o que é hoje foi dado aos 14 anos, quando o craque passou nos testes do El Mokawloon, do Cairo. O problema era que Salah morava em Nagrig, a cerca de 120 quilômetros da capital egípcia. Para manter a rotina diária de treinos, ficava apenas duas horas na escola, das 7h às 9h, e fazia baldeação em até cinco ônibus para chegar ao centro de treinamento do clube.

Após aguardar por cerca de uma hora, treinava por duas horas, e repetia a peregrinação para voltar a Nagrig. No total, eram nove horas diárias em trânsito só para manter seu sonho vivo. “Foi  difícil, mas eu era jovem e queria ser jogador. Queria ser grande, alguém especial”, admite. 

Como recompensa pela luta e pelo talento que já começava a aflorar, Mohamed Salah estreou na equipe profissional do El Mokawloon aos 16 anos de idade. Foi aí que percebeu já estar mais próximo de realizar seu desejo. Por sua velocidade, jogava como lateral-esquerdo no início da passagem pelo time que o revelou. Mas a gritante ofensividade e a predisposição para atuar na frente fizeram com que ele fosse deslocado para o ataque já no início da trajetória profissional. 

Em meio ao desenvolvimento de Salah, o futebol egípcio sofreu um duro golpe em 1º de fevereiro de 2012. Durante a partida entre Al Masry e Al Ahly, na cidade de Port Said, a torcida do Al Masry invadiu o campo e desencadeou uma batalha que terminou com 74 mortos, além de mais de mil feridos. Como resultado, o Campeonato Egípcio foi suspenso por dois anos. Logo depois, porém, um amistoso do Basel (Suíça) com a seleção sub-23 do Egito, da qual Salah já fazia parte, fez o atacante rumar para a Europa, onde brilhou no próprio Basel, passou por dificuldades no Chelsea, e depois iniciou uma escalada que não pararia mais. Deixou gols e assistências na Fiorentina e na Roma, até finalmente chegar ao Liverpool, nesta temporada. “O que estava claro é que eu não queria voltar até ser um jogador de alto nível”, declarou.

Com supervisão de Mauricio Fonseca