Roger, do Palmeiras, se firma como um dos destaques da nova geração de técnicos 

Mesmo sem ter conquistado ainda um título de expressão como treinador, Roger Machado já é respeitado na profissão. Ex-jogador de sucesso, vem conseguindo conciliar o que aprendeu dentro das quatro linhas com a formação acadêmica adquirida no curso de Educação Física. Numa conversa pelo telefone, de mais de uma hora de duração, um dia depois de golear o Novorizontino por 5 a 0, o técnico do Palmeiras falou de sua experiência dentro do vestiário e de como vem fazendo para administrar um elenco recheado de bons jogadores, como é o caso do clube paulista. Fã de Tite, está empolgado com a seleção.

Você jogou por três temporadas no Fluminense (2006, 2007 e 2008), foi campeão da Copa do Brasil, vice da Libertadores. Te assusta a situação atual do futebol carioca, com estádios vazios e clubes sem dinheiro, com exceção do Flamengo? 

 Este quadro já se desenhava na minha época, com salários atrasados e jogos deficitários. A diferença era que nos clássicos os estádios enchiam. Hoje, nem isso. É preciso rever as fórmulas do Campeonato Carioca, encontrar maneiras de atrair de novo o torcedor. O Rio tem quatro grandes clubes, não pode estar nesta situação. Hoje o futebol é muito profissional, em todas as áreas. A saída é por aí.

Já recebeu alguma proposta de time carioca? 

Até hoje não, mas ficaria orgulhoso se recebesse. Tenho muito carinho pelo Rio, minha filha nasceu ai.

Recentemente o meia Marquinhos Gabriel, do Corinthians, recusou uma proposta do Botafogo, alegando que tinha medo da violência do Rio. Você viria trabalhar hoje no futebol carioca? 

A segurança da nossa família é sempre uma preocupação. O Rio está passando por um momento de instabilidade e isso assusta muita gente. Muitos profissionais pensam duas vezes antes de aceitar uma proposta, mas não seria o meu caso. Vivi três anos maravilhosos no Rio e nunca tive qualquer tipo de problema. 

Mas a situação hoje parece pior do que há uma década. 

Pode ser, mas há um pouco de exagero. Os veículos de comunicação colocam a violência do Rio de Janeiro dentro da sua sala, todos os dias. Assusta mesmo, mas as pessoas continuam levando suas vidas  normalmente.  Não estou dizendo que não há violência no Rio, mas para quem mora fora parece mais assustador do que a realidade.

Você foi um jogador vitorioso e é considerado um dos técnicos mais promissores da nova geração. O quanto te ajuda hoje o fato de ter estado dentro das quatro linhas?  

Tenho quase 100 mil horas de futebol como jogador, o que me permite saber o que pode acontecer durante um jogo, como um jogador reage a determinada situação, e por aí vai. Mas só isso não basta. Fiz faculdade  para poder teorizar o que eu já sabia na prática. Senão, certamente só repetiria o que aprendi com outros treinadores. E da maneira como recebi aquilo. 

Ter se formado em Educação Física foi fundamental para a sua formação como treinador?

Não tenho a menor dúvida quanto a isso. Fui buscar na academia o conhecimento que não tinha, apesar de tantos anos como jogador. Mas isso depende de cada um. Eu pretendo fazer pós graduação, mas isso não quer dizer que serei mais bem preparado do que um técnico  “boleiro”. É só o que eu acho melhor para mim, para a minha carreira.

O primeiro time que você dirigiu foi o Juventude, em 2014, com 39 anos, e hoje  está no Palmeiras, um gigante do nosso futebol.  Já se sentiu discriminado por ser considerado “jovem” para um treinador de ponta?  

Nunca senti isso em nenhum clube que trabalhei. O fato de ter jogado em alto nível dá respeito junto aos jogadores. 

Muita gente achou que você, por falta de experiência,  teria problemas para gerir o vestiário do Palmeiras, com tantos bons jogadores juntos. Pelo visto você está tirando de letra, né? 

Foi assim no Grêmio e ano passado no Atlético-MG, que também tinha um elenco cheio de estrelas, como o Palmeiras hoje. Os anos vão passando e todos os dias continuo tendo que provar que sou capaz.  Procuro ser o mais coerente possível e o jogador percebe isso. Um vestiário saudável não é aquele que não tem problemas. É aquele em que os problemas são resolvidos. 

Foi fácil escolher entre Jaílson, Fernando Prass e Weverton, o  goleiro titular do Palmeiras? 

Não, pelo contrário.  Acho muito importante a história do jogador no clube, mas a história do Fernando Prass comigo começou agora, assim como a do Weverton e do Jaílson. Minha decisão foi pelo que vi nos treinos e conversei com os preparadores.

 Como você define o trabalho de um treinador? 

Para mim são 50% tática e 50% gestão de grupo. 

Os treinadores brasileiros estão atrasados? 

Não, claro que não. Mas precisamos evoluir na questão metodológica. Sinto falta de livros de treinadores brasileiros, por exemplo, mostrando como são suas ideias de jogo, seus métodos.

Quais foram os treinadores que mais influenciaram na sua formação? 

Tive mais de 30 técnicos ao longo da minha carreira de jogador. Com todos aprendi alguma coisa. Com uns aprendi o que fazer, com outros o que não fazer jamais. Tite, Renato Gaúcho (sabe administrar um vestiário como poucos), Celso Roth, Evaristo de Macedo e Felipão foram os mais marcantes.

 A seleção vai bem na Copa? 

Sou fã confesso do Tite. Ele conseguiu fazer tudo o que pensa de futebol  na nossa seleção. O Brasil é sim um dos favoritos na Rússia.

 E o Neymar? 

Ele tem um repertório infindável e isso o torna um dos melhores do mundo.   Quando jogava, peguei diversos pontas muito habilidosos. Com o tempo, passei a intuir o que o adversário iria fazer. Às vezes, até os induzia a fazer o que eu imaginava. Com o Neymar isso é impossível.