'Tem cartola que gosta de reclamar. Eu só agradeço', diz Bob Burnquist

Maior medalhista dos X Games rouba a cena com estilo informal em meio à cartolagem brasileira e projeta captação maior de recursos para o skate na CBSk de olho em Tóquio

Peça-chave para viabilizar a participação do skate brasileiro nos Jogos de Tóquio-2020, Bob Burnquist quer mostrar que a onda de novos dirigentes esportivos no país veio mesmo para ficar.

O carioca, que é o maior medalhista da história dos X Games, com 30, se divide entre San Diego (EUA), onde mora, e o Rio de Janeiro, de olho nas demandas da Confederação Brasileira de Skate (CBSk), para a qual foi eleito presidente em outubro do ano passado.

Desde então, vem chamando a atenção. Na prática, conseguiu unir atletas e dirigentes para que a entidade fosse reconhecida pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB), o que acabou com as ameaças de um boicote verde e amarelo aos Jogos.

No discurso, mostra-se otimista com o novo momento e projeta aumento na captação de verba, sem reclamar. Para 2018, a estimativa de arrecadação da CBSk pela Lei Agnelo/Piva é de R$ 719.696,97.

– Quero tudo para o skate – disse Bob, em entrevista ao LANCE!.

Na última sexta-feira, Bob apareceu de skate e boné para votar na Assembleia do COB e, de novo, surpreendeu.

O que foi mais difícil desde que assumiu a confederação?

O mais difícil foi tomar a decisão e falar “vamos fazer”. No começo, fui com uma equipe que aceitou o desafio, senão eu não iria. Não me desenvolvi querendo ser presidente de confederação. Gosto é de andar de skate e quero fazer o esporte progredir. Aposentado eu não estou. Quando quero, disputo competições. Foi uma decisão necessária naquele momento. Você tem de convencer as pessoas, independentemente de andarem de skate ou não. Nem todas que formam a CBSk precisam saber andar ou ter sido profissionais. Esse purismo que tem no esporte nos fazia ficar muito fechados. Peguei gente de vários locais. O negócio era fazer andar para frente. Fiz muitas ligações. Não deixou de ser uma movimentação política. De resto, foi conciliar com minha carreira e buscar parcerias.

Na semana passada, o Rio sediou a primeira etapa do Circuito Brasileiro, que formará a Seleção. O que muda com a criação de um calendário?

Nós temos de fazer ajustes. Tivemos um evento em Itajaí de park, mas tinha bowl. Temos de ajustar o formato, porque a modalidade é o que é, e não podemos fazer uma engolir a outra. Park e street são olímpicos? Beleza. Vamos trabalhá-las. Mas há outras. Foi muito bom ver a movimentação, e a galera empolgada. No Rio, que era evento de street, tivemos os brasileiros de ponta presentes, como a Letícia Bufoni, o Felipe Gustavo, o Tiago Lemos. Sempre tivemos campeonatos, mas faltava uma agenda da elite. Antes, era difícil dar o "ok" para um evento no Brasil, que às vezes não tinha a mesma estrutura e não pagava tanto quanto lá fora. Hoje, estamos dando importância ao calendário brasileiro. Além de ter uma premiação boa, é uma oportunidade de o skatista adquirir experiência no formato olímpico e fazer parte da Seleção Brasileira, o que inclui obter uma série de benefícios.

A cobrança da CBSk será por medalhas em Tóquio-2020?

A expectativa é, obviamente, de medalhas. Todos os anos há brasileiros no pódio pelo mundo. Letícia, Kelvin, Pedro, Luan e outros nomes do street são exemplos. É legal de ver que eles estão lá. Se todos estiverem nessa mesma frequência na Olimpíada, teremos boas chances. É questão de botar fé nos nossos atletas.

Os recursos da CBSk hoje são suficientes para suas metas?

Muitos cartolas gostam de reclamar. Eu sou agradecido. Acho que se nos derem R$ 20 mil, iremos agradecer e continuaremos andando de skate como sempre fizemos. Nunca tivemos dinheiro. Não quero lutar por salário, quero dar tudo para o skate e tchau. (O importante) é saber como faço para repassar tudo isso ao skate. Com a ajuda do COB, conseguimos na CBSk uma representatividade para que tivéssemos direito a esse dinheiro para as modalidades olímpicas. Agora, é correr atrás com o que temos. Se conseguirmos mais, legal. O plano da Seleção Brasileira tem outro custo. Temos de ir atrás para custear. Vou atrás, como sempre fiz em minha carreira. O que conseguimos foi uma grande conquista e conseguiremos fazer bastante, mas queremos buscar mais e acredito que conseguiremos mais, para que eu possa deixar a confederação bem encaminhada.

Você não quis receber salário como presidente. Por quê?

Eu não entrei aqui para fazer dinheiro. É lógico que temos gastos administrativos, com escritório, de alguma maneira um salário administrativo para o dia a dia. Mas é diferente de um salário desproporcional para dirigente. Estamos vivendo uma nova fase no esporte brasileiro e temos que agir dessa maneira. Se eu quero pegar o dinheiro e usar para fazer a Seleção Brasileira, beleza. Ao mesmo tempo, eu estou no setor privado ao me tornar presidente da confederação. Eu ainda sou competidor, tenho patrocínios, tenho responsabilidade privada. Tenho de tomar cuidado com essa linha. É por isso que achei melhor eu não receber. Se eu já estivesse aposentado, sem vínculos, eu teria de sobreviver. Mas estou bem sensível a essas coisas. Minha proposta de entrada foi diferente.

O que está achando da vida de dirigente? A imagem dos cartolas anda abalada no Brasil...

O ser humano está com uma má imagem. Não importa se é do setor público ou privado, se é presidente de confederação, dono de empresa ou cidadão comum. Como skatista, estamos acostumados com os rótulos. Éramos os vagabundos e hoje temos uma imagem muito melhor. Ainda há preconceitos, mas mudamos em grande medida isto. E existe um novo momento. As confederações têm de correr atrás e fazer. Senão, quem quer fazer por motivos nefastos vai lá tomar esse lugar. O Brasil vive a chance da renovação e vamos aproveitá-la.

Em que medida o skate no Brasil já superou o rotulo do recreativo para ter o rótulo de profissional?

Eu acho que são mundos diferentes. Tem um mundo competitivo. Óbvio que, mesmo competindo, eu vou gostar, pois amo fazer o que faço. Mas se você for ver o lado de progresso técnico em... Filmar em pistas diferente não é ganhar ponto, medalha, nem nada. É uma evolução e uma identidade artística. Eu competi minha vida inteira, criei obstáculos novos, tudo faz parte. Só estamos vivendo um momento de maior atenção, pelo fato de o skate agora ter duas modalidades olímpicas, e temos de trabalhar o lado olímpico do esporte. Mas minha visão é de que a identidade do skate é a mesma. Depois de ganhar os pontos, as medalhas, a gente volta para o que sempre gostamos de fazer.

Você se despediu dos X Games, mas não deixou de competir. Como tem conciliado os eventos com as demandas de dirigente?

Há algum tempo eu escolho. Se acho legal, vou competir. Se não achar, não vou. Fazemos eventos de mega rampa e acabo competindo, mas X-Games não mais. Vai de acordo com a oportunidade. Tenho eventos próprios. Se conseguirmos trazer o evento de mega rampa para o Brasil de novo seria muito bom. Posso competir. Mas não mais aquela busca por títulos mundiais. Não tem necessidade.

Ao fim deste mandato, o que você pretende? Continuaria no cargo?

Vivo dia após dia. Nem sei exatamente até quando vai o mandato (risos). A minha entrada foi realmente para conseguir a representatividade da CBSk no COB, que era o óbvio, mas demandou esforços. E, em seguida, colocar uma nova direção na confederação, para pensarmos maior e irmos além. Aos poucos, vou pensando. Não tenho visão de ficar na presidência por 22 anos, como alguns.

QUEM É ELE

Nome

Robert Dean Silva Burnquist

Nascimento

10/10/1976, no Rio de Janeiro

Conquistas

Primeiro brasileiro a levantar um título mundial, em 1995; Sete vezes eleito o melhor skatista do ano; dez vezes campeão mundial (oito na Megarrampa e duas no Vertical); maior medalhista dos X Games (30, sendo 15 de ouro); primeiro brasileiro a ganhar o Prêmio Laureus, em 2001; primeiro a acertar o 900º na Megarrampa.