Entrevista com Zico: lições de um craque

Longe dos campos desde o ano passado, Zico segue acompanhando grande paixão

Zico completou ontem 65 anos. Poucos dias antes, sentando no seu escritório no CFZ, falou sobre futebol, sua grande paixão, durante quase duas horas. Se exaltou quando o assunto foi o combalido Campeonato Carioca e abriu um sorriso de satisfação para elogiar Neymar, de quem é fã incondicional. Não escondeu sua decepção ao abordar as participações do seu querido Flamengo na Copa Libertadores.  Quando o tema foi a seleção brasileira e a Copa de 2018, mostrou uma confiança que nem mesmo a contusão de Neymar é capaz de abalar. Para o maior artilheiro da história do Maracanã, a seleção de Tite é uma das favoritas ao título na Rússia. 

O Campeonato Carioca tem salvação? 

Tem, mas primeiro é preciso resgatar uma série de coisas, a começar pela credibilidade. O carioca não acredita mais na competição, e com toda razão. Os regulamentos são esdrúxulos, cheio de jogos deficitários, que não valem nada. Todo ano tem um regulamento diferente, todos ruins. Como você vai atrair o torcedor desta maneira? Na Taça Guanabara, Vasco e Fluminense fizeram apenas um clássico. Flamengo e Botafogo fizeram dois, porque disputaram a semifinal. Não tem cabimento. 

O que fazer? 

É só não complicar. Os times pequenos disputam uma seletiva e quatro se juntam aos quatro grandes. Grupo único, com turno e returno. O campeões de cada turno se enfrentam numa final. Só aí já são seis clássicos para cada. Se um time for campeão dos dois turnos, leva o título. Não tem mistério. Outra coisa são os horários dos jogos noturnos. É um absurdo os jogos começarem quase às 22h, ainda mais no meio da semana. Isso é uma loucura, não tem em lugar nenhum do mundo. Na Europa os jogos são no máximo às 20h45m. Às vezes tem jogos às 22h, mas são exceções, só acontecem no verão. E no verão europeu tem sol até 21h, pelo menos. 

O Flamengo tem hoje uma superioridade técnica e financeira muito superior a Vasco, Botafogo e Fluminense, como nunca se viu antes no Rio de Janeiro. A longo prazo, você acredita numa “espanholização” do futebol brasileiro, com apenas dois ou três clubes dominado o cenário?  

No Brasil, não. O país tem 12 clubes grandes que jamais deixarão de ser grandes. O problema está mais no Rio, mas não é definitivo. Os quatro grandes de São Paulo, os dois de Minas e os dois do Rio Grande do Sul estão no mesmo patamar do Flamengo. 

Todos têm estrutura profissional. Sem falar no Paraná e em Santa Catarina.

O Flamengo estreou quarta-feira na Libertadores, na sua 14ª participação na competição, e voltou a frustrar a torcida. Tirando o título de 1981, o máximo que o clube atingiu foi as semifinais em 1982 e 1984. Foi eliminado cinco vezes na fase de grupos. Qual o problema do Flamengo com a Libertadores? 

O problema é simples: o Flamengo não sabe jogar a Copa Libertadores. Só sabe jogar dentro de casa, quando sai fica acovardado, muda a sua maneira de atuar. Tem sido sempre assim. Dentro, o time  soma muitos pontos, portanto quase sempre basta uma vitória fora para passar de fase. Ano passado o time não fez um ponto sequer fora. Um empate teria sido suficiente. Assim fica difícil. E agora ainda tem o aspecto psicológico, já que o Flamengo foi eliminado na primeira fase nas três últimas participações e a pressão será cada vez maior.

O Real Madrid pagou 45 milhões de euros (R$ 150 milhões) pela Vinicius Júnior, quando ele ainda tinha 16 anos. Ele vale tudo isso? 

O Real Madrid só aceitou pagar esta grana pelo Vinicius porque ficou com medo de acontecer o mesmo que ocorreu em relação ao Neymar. Eles tiveram o Neymar nas mãos quando ele ainda era um menino e deixaram escapar. Mais tarde o Barcelona foi lá e levou. Ficaram com medo de acontecer o mesmo agora e resolveram gastar este dinheiro todo. 

Você acredita que ele vai dar certo no futebol europeu?

Isso só o tempo dirá, mas é evidente que o Vinicius Júnior tá em evolução.  Me parece um bom garoto, com cabeça boa. A família está sempre por perto, e isso é muito bom. A primeira vez que o vi atuando foi numa Copa da Amizade, lá no CFZ. Ele tinha uns 14 anos. Já deu notar que era diferente. Na minha opinião ele tem correspondido no time profissional. Está no caminho certo. 

A Copa começa daqui a pouco mais de 100 dias. Quem são os favoritos?

Brasil, Argentina, Alemanha e França. Acho que a Espanha está um pouco abaixo. 

O Brasil segue favorito mesmo depois da contusão do Neymar? 

Acredito que sim. Pelo que dizem os médicos, Neymar vai estar apto para jogar a Copa. Se vai render tudo o que pode, não sei. Mas vamos acreditar. Em 2002, Ronaldo e Rivaldo estavam machucados, se recuperaram  e jogaram muito. 

Independentemente do Neymar, você acredita que a seleção chegará à Rússia mais bem preparada do que nas duas últimas copas? 

Sem dúvida. O Tite está fazendo um excelente trabalho, melhorou muito o astral da seleção, deixou os jogadores à vontade. E poderia ser até melhor se ele tivesse assumido depois do vexame do Mundial de 2014. Era o Tite quem deveria ter entrado e não o Dunga, que só tinha trabalhado um pouco no Internacional depois da Copa de 2010.

Neymar fez bem em trocar o Barcelona pelo PSG? 

Claro. Se ele conquistar títulos importantes no PSG será inédito, o que não aconteceria se continuasse no Barcelona, um clube acostumado a ganhar tudo. Esquece este negócio de Real Madrid. 

Se o Brasil conquistar o hexa e Neymar for o destaque da campanha, você acredita que ele se tornará o segundo maior jogador do Brasil em todos os tempos, atrás apenas do Pelé?

Para mim, em termos de qualidade, Pelé e Garrincha estão no topo. Neymar é espetacular, um cracaço, mas abaixo dos dois. Mas pela dimensão que tomou hoje no mundo, pela exposição, pode sim, em termo de grandeza, ficar atrás apenas do Pelé. É bom deixar uma coisa bem clara: no futebol, o mais importante é o que você faz dentro de campo. E o Neymar joga muito.