De álbum de figurinhas a despedida de rival, histórias de um Zico "sessentão"

Herdeiro no Fla, irmãos e companheiro de seleção homenageiam um dos maiores do futebol brasileiro

O camisa 10 da Gávea, Zico, completa 60 anos neste domingo, mas seu aniversário começou a ser comemorado pelo menos um mês antes. Durante todo o mês de fevereiro, o Jornal do Brasil colheu com pessoas próximas ao Galinho algumas histórias para que outros possam contar um pouco mais a respeito de um dos maiores jogadores brasileiros em todos os tempos.

Dejan Petkovic, considerado por muitos rubro-negros o maior camisa 10 do clube depois da despedida de Zico, em 1990, conheceu o Galinho durante a Copa de 1982, na Espanha. A quase três mil quilômetros de onde Zico & Cia. encantavam o mundo  com um futebol vistoso e envolvente, um Petkovic de apenas 10 anos e morador da vila de Majdanpek colecionava o álbum de figurinhas da Copa. Zico, cabeludo e de camisa amarela, era um dos destaques entre as crianças fanáticas por figurinhas:

 "E era uma figurinha rara. A figurinha do Zico valia por outras cinco. A gente batia bafo para virar a figurinha  e tentar levar aquela para casa. A fama do Zico era grande, todo mundo sabia que ele era um craque", lembra Pet. "Eu gostava muito de jogar futebol, mas nem imaginava que poderia ser jogador um dia na minha vida".

Quando chegou ao FLamengo em 2000, houve a tentação em se firmar como um sucessor de Zico no clube, uma expectativa que vigora desde 1990 no clube. Porém, ao conhecer os feitos de Zico pelo rubro-negro, as ambições tornaram-se um pouco mais modestas. Até em um grande momento da sua trajetória no Flamengo, o gol do tricampeonato carioca de 2001, ele lembrou do Galinho.

"Quando vi a idolatria sobre ele, pensei: vou tentar não envergonhar a camisa 10. Em 2001, quando fiz o gol, ele pôde ter orgulho de ver uma cobrança de falta que lembrou um pouco do que ele fazia no Flamengo", diz. Já na passagem de Zico como diretor de futebol do clube na gestão de Patrícia Amorim, em 2010, as lembranças não são nada boas:

"Como jogador, vi o que fizeram com ele como uma desilusão. O cara era o mito do Flamengo, e duvidaram da credibilidade dele. Se fizeram isso com ele, imagina comigo?", questiona. "Ele entrou inocente, ingênuo, e acreditando. Esse foi o maior erro dele. Ele via o Flamengo como instituição, não como as pessoas que estavam lá. Mas a história dele está marcada no clube. Alguns deixam marcas grandiosas, outros deixam marcas que merecem ser esquecidas", disparou Petkovic, que definiu a necessidade de uma estátua de Zico na Gávea com uma frase curta e singela. "O Zico merecia uma estátua do tamanho do Cristo Redentor na Gávea".

Família unida e orgulhosa

 Edu Coimbra, ídolo maior da história do América Futebol Clube e irmão mais velho de Zico ainda vivo (Antunes, que jogou no Fluminense e no América, morreu em 1998), comenta que Zico era apenas uma mostra de que craques de bola a família Antunes Coimbra tinha de sobra. E, em 1976, uma situação triste para Zico na Taça Guanabara de 1976, quando perdeu o pênalti na final contra o Vasco, foi simbólico para a família: Zico e Edu jogando juntos com a camisa do clube de coração do pai, Seu Antunes, apesar de poucas oportunidades naquele ano para o irmão mais velho:

 "O Carlos Froner, técnico do Flamengo na época, não quis me usar junto com o Zico, o que é uma pena. Quando jogamos juntos, fomos muito bem. Naquela final, eu entrei e dei o passe pro Geraldo empatar (o jogo acabou em 1 a 1). Vendo o lance muitos anos depois no Canal 100, eu até comentei: "Que passe do Zico para o gol do Geraldo", e era eu!! Foi inclusive o meu último jogo no Flamengo", lembra ele, que até pediu para bater o pênalti no lugar do Zico. "Mas você acha que ele me ouviu? A galera toda gritando pelo nome dele...", ri Edu, saudoso.

 Auxiliar de Zico desde 2002, quando foi para a seleção do Japão e passou a acompanhar o irmão mais novo em todos os clubes por onde passou,  Edu utiliza as palavras de Fernando Calazans, ex-colunista do Jornal do Brasil e colunista de O Globo, para definir o fato de Zico não ter vencido uma Copa do Mundo. "Azar da Copa do Mundo."

Nando Coimbra, outro irmão do "caçulinha" Zico, conta que uma das maiores decepções da carreira de Zico, a não convocação para os Jogos Olímpicos de 1972, pode ter tido algo a ver com a repressão da Ditadura Militar, que comandou o país entre 1964 e 1985. " Quando veio a lista dos 44 nomes para a convocação, feita pelo Antoninho, ela voltou para ele com 43 nomes. O do Zico estava riscado.

O motivo para tudo isso seria o Plano Nacional de Alfabetização (PNA), de Paulo Freire:

 "Em 1963, fiz o concurso e passei junto com vários familiares. E quando a "Maldita" entrou, a primeira coisa que fizeram foi tornar o PNA subversivo. Nem dei importância a isso inicialmente, mas fui jogar no Espírito Santo e, depois de um tempo, o novo treinador, que era militar, me tirou do time e me fez voltar ao Rio. Sempre que eu começava a ir bem em um clube, me tiravam por causa disso, tenho certeza. Passei um sufoco em Portugal com a PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), porque eles sabiam de tudo isso. Voltei fugido para o Brasil", conta ele, que lembra que em 1971 os militares entraram no apartamento onde estavam, além dele, Cecília Coimbra (hoje presidente do Tortura Nunca Mais) e Custódio Coimbra (fotógrafo).

"Entraram no apartamento do meu primo, também chamado Nando, que era Sargento da Aeronáutica. Fomos levados para a sede do DOI-CODI, e me bateram, ficamos quatro dias lá na Barão de Mesquita e fomos fichados", conta.

 Rival agradecido

 Roberto Dinamite foi o maior rival clubístico de Zico. Jogando pelo Vasco de 1971 a 1990, Dinamite sofreu nas mãos do time de Zico algumas vezes. "Mas compliquei muitas vezes para eles também", diverte-se, referindo-se principalmente aos campeonatos cariocas de 1976 e 1977, quando o time foi campeão de turno e do estadual sobre o Flamengo de Zico. "A nossa rivalidade, porém, era sempre respeitosa e leal. Nunca precisei falar mal do Zico para encher estádio. Aqueles times da época bastavam".

 Ao escolher a pior e melhor lembrança contra o Flamengo do Galinho, Dinamite cita uma série de três jogos: a decisão do Campeonato Carioca de 1981. Pelo regulamento, o Flamengo poderia perder duas vezes contra o Vasco para que houvesse um terceiro jogo, em igualdade de condições entre os clubes.

"Nenhum dos dois times ganhava três jogos seguidos contra o outro, e o Vasco aproveitou as primeiras chances. No primeiro jogo, 2 a 0 com dois gols meus, com o Flamengo ainda abalado pela morte do Cláudio Coutinho. No segundo jogo, numa chuva danada e a torcida do Flamengo gritando "é campeão," chutei a bola que parou na poça d'água enganando o Marinho e fiz o gol aos 43 minutos do segundo tempo. Foi demais", recorda ele.

No terceiro jogo, porém, o Flamengo venceu por 2 a 1 e foi campeão estadual, entre os títulos da Libertadores e o Mundial conquistado na semana seguinte. "Essa derrota foi dolorosa. Tínhamos chegado tão perto do título".

Sobre a despedida realizada em 1993, em um jogo contra o Deportivo La Coruña, Dinamite agradece o fato de Zico, tão identificado com o Flamengo, ter vestido a camisa do Vasco. E dispara: "Se fosse uma situação contrária e ele me pedisse, eu faria a mesma coisa, em respeito a ele. Foi um gesto de grandeza, muito carinho e respeito da parte dele. Mesmo perdendo o jogo para o La Coruña no Maracanã, o importante foi a presença de vários amigos naquele momento tão importante pra mim", finalizou.

Craque em uma seleção mágica

Paulo Roberto Falcão foi o luxuoso companheiro de meio-campo de Zico na Seleção Brasileira de 1982 que encantou o mundo na Copa da Espanha, e que vinha sendo formada desde a entrada de Telê Santana, em 1980. "Muito mais novo que Zico", diverte-se Falcão (nascido em outubro de 1953), o craque escreveu um livro cujo título define bem o que é, para ele, aquele time de feras:

"A seleção que não ganhou a Copa, mas conquistou o mundo". Segundo o ex-camisa 5, a  Copa de 1982 tinha um simbolismo parecido para ele e o Galinho: " Eu não fui convocado em 1978, e ele foi mal naquela Copa, então ele jogou duas Copas em uma. Eu também fiz isso. E acho que jogamos muito realmente naquele campeonato", analisa. 

 Sobre o fatídico jogo contra a Itália, Falcão conta que, no vestiário, chegou a sugerir uma mudança tática que poderia mudar a história daquele jogo. Sobre aquele jogo, Zico já declarou que considera não ter sido acionado o suficiente, mesmo com a marcação de Gentile sobre ele:

 "Na preleção, eu dei a ideia de botar o Zico em cima do Cabrini na ponta direita, porque o Gentile iria junto e o Zico prenderia dois jogadores.  Mas eu fui voto vencido. Não sei se mudaria o resultado, mas não era novidade ser marcado daquele jeito nem para mim e nem para ele. Dei a ideia a ele de arrancar sempre que pudesse para fugir da marcação. Mas como jogava mais atrás, talvez não tenha podido ajudá-lo como gostaria naquele jogo", diz Falcão, que define Zico como "dono de uma condução de bola curta muito interessante, excelente finalizador e um tremendo assistente, daqueles de botar o atacante na cara do gol o tempo todo". Para o Rei de Roma, Zico era "completo". É uma definição apropriada.